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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Claraboia, de José Saramago

Sinopse: A ação do romance localiza-se em Lisboa em meados do século XX. Num prédio existente numa zona popular não identificada de Lisboa vivem seis famílias: um sapateiro com a respetiva mulher e um caixeiro-viajante casado com uma galega e o respetivo filho - nos dois apartamentos do rés do chão; um empregado da tipografia de um jornal e a respetiva mulher e uma "mulher por conta" no 1º andar; uma família de quatro mulheres (duas irmãs e as duas filhas de uma delas) e, em frente, no 2º andar, um empregado de escritório a mulher e a respetiva filha no início da idade adulta.O romance começa com uma conversa matinal entre o sapateiro do rés do chão, Silvestre, e a mulher, Mariana, sobre se lhes seria conveniente e útil alugar um quarto que têm livre para daí obter algum rendimento. A conversa decorre, o dia vai nascendo, a vida no prédio recomeça e o romance avança revelando ao leitor as vidas daquelas seis famílias da pequena burguesia lisboeta: os seus dramas pessoais e familiares, a estreiteza das suas vidas, as suas frustrações e pequenas misérias, materiais e morais.O quarto do sapateiro acaba alugado a Abel Nogueira, personagem para o qual Saramago transpõe o seu debate - debate que 30 anos depois viria a ser o tema central do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis - com Fernando Pessoa: Podemos manter-nos alheios ao mundo que nos rodeia? Não teremos o dever de intervir no mundo porque somos dele parte integrante? [retirado do site da Wook]

A minha opinião: Para quem conhece algo de Saramago, Claraboia é um livro atípico, sendo que o que salta mais à primeira vista são os diálogos escritos na forma convencional, com direito a parágrafo e travessão. Centrando-nos na página gráfica, quase que parece que nos deparamos com um livro de um escritor português que retrata uma história do dia-a-dia num prédio algures por Lisboa, onde os moradores nos fazem lembrar os nossos vizinhos, familiares ou conhecidos ou as vivências que os próprios já nos contaram. 

De facto, é sobretudo por este realismo que Claraboia é um bom livro. Várias vezes me surpreendi com a forma de Saramago transmitir tão bem para o papel pessoas e maneiras de pensar tão diferentes: num capítulo era a esposa que não quer depender do marido que despreza, mas que todos os dias põe o jantar na mesa, noutro a adolescente fogosa que sabe bem o efeito que tem, mas que também finge que não o sabe ou ainda o marido que se quer desprender da família que não ama, mas que parece um pássaro com medo de sair da gaiola quando finalmente está em liberdade. 
É engraçado como de cada família do prédio lemos não mais que meia dúzia de capítulos mas conhecemos tão bem quem representam que podemos nós desenhar os contornos que as suas vidas tomariam se o livro continuasse.

Excepção talvez feita a Abel, o inquilino que se encontra num quarto alugado no prédio o mesmo tempo que nos encontramos a ler o livro. É talvez a personagem mais imprevisível, cuja vida seguirá um rumo que ele próprio não sabe ao certo. 

E, se não fosse Claraboia um livro de Saramago, talvez acabaria por aqui a crítica. Porém, para quem conhece bem Saramago, Claraboia oferece mais. Oferece a oportunidade única de ver um Saramago incipiente. Um Saramago que ainda não se libertou completamente das amarras das regras da escrita, mas que já adapta os provérbios e esta língua tão rica para espelhar uma história tão portuguesa. E é assim que vou recordar Claraboia

Recomendo, mas não como primeiro livro para conhecer Saramago. 

Classificação : 8/10 - Muito Bom

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

E as Montanhas Ecoaram, de Khaled Hosseini

Sinopse: 1952. Em Shadbagh, uma pequena aldeia no Afeganistão, Saboor é um pai que um dia se vê obrigado a tomar uma das decisões mais difíceis da sua vida: vender a filha mais nova, Pari, a um casal abastado em Cabul e assim poder continuar a sustentar a restante família. A separação é particularmente devastadora para Abdullah, o irmão mais velho que cuidou de Pari desde a morte da mãe de ambos. Nenhum dos dois imaginava que aquela viagem até à capital iria instalar um vazio nas suas vidas que seria capaz de atravessar décadas e quilómetros e condicionar os seus destinos...

Neste seu terceiro romance, E as Montanhas Ecoaram, Khaled Hosseini traz-nos uma belíssima e comovente saga familiar que reflete sobre como os laços que nos unem sobrevivem aos obstáculos que a vida nos impõe.

A minha opinião: Depois de Mil sóis resplandescentes, Khaled Hosseini estava na minha lista de autores a revisitar. Sendo afegão, mas vivendo nos EUA, o autor consegue estabelecer a ponte perfeita entre oriente e ocidente para um leitor que pouco conhece da realidade afegã.

Em E as Montanhas Ecoaram, o leitor acompanha 3 gerações de uma família pobre proveniente de uma pequena aldeia no Afeganistão, sofrendo assim com a separação forçada dos dois irmãos Abdullah e Pari e esperando pelo seu reencontro. Mas o livro é muito mais do que isto. Por muito que nos queiramos centrar apenas nos irmãos, cada capítulo foca-se numa personagem com que contactámos de forma breve anteriomente, sendo os trilhos entrecruzados a forma que o leitor tem de acompanhar os rumos que as vidas das personagens que lhe são queridas tomaram. 

No fundo, um pouco como a própria vida: algumas das muitas pontas soltas das histórias daqueles com que nos cruzámos, aqui ou ali, mais cedo ou mais tarde, e muitas vezes de forma inesperada, são por nós descobertas.

Lendo em cada capítulo vidas que se entrelaçam, conhecemos diferentes personagens: a maioria vivendo no Afeganistão, mas também alguns que decidem ir para lá em missões de ajuda humanitária ou, pelo contrário, decidem deixar o Afeganistão para trás em busca de uma vida melhor, mas com as suas raízes gravadas no coração. Este é um aspecto belíssimo do livro, a oportunidade dada ao leitor de contactar com personagens com vivências tão distintas, sendo inevitável não parar para pensar nas pessoas reais que eles representam.

Porque, a meu ver, o livro não pretende ser um retrato histórico/político do Afeganistão nos 60 anos que contempla, mas sim das pessoas que são separadas daqueles que amam, dos emigrantes que se sentem deslocados ou das pessoas que reencontram o que há muito julgavam perdido.

E o final, que posso dizer? Dolorosamente belo.

Recomendo.

Classificação: 8/10 - Muito bom

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Os Jogos da Fome (Volume I), de Suzanne Collins

http://www.presenca.pt/livro/ficcao-e-literatura/romance-fantastico/os-jogos-da-fome/
Sinopse: Num futuro pós-apocalíptico, surge das cinzas do que foi a América do Norte, Panem, uma nova nação governada por um regime totalitário que a partir da megalópole, Capitol, governa os doze Distritos com mão de ferro. Todos os Distritos estão obrigados a enviar anualmente dois adolescentes para participar nos Jogos da Fome - um espetáculo sangrento de combates mortais cujo lema é «matar ou morrer». No final, apenas um destes jovens escapará com vida… Katniss Everdeen é uma adolescente de dezasseis anos que se oferece para substituir a irmã mais nova nos Jogos, um ato de extrema coragem… Conseguirá Katniss conservar a sua vida e a sua humanidade? Um enredo surpreendente e personagens inesquecíveis elevam este romance de estreia da trilogia Os Jogos da Fome às mais altas esferas da ficção científica.

A minha opinião: Confesso que quando estava, de facto, na moda ler os livros desta trilogia, esta me passou um pouco ao lado. A principal razão devia-se à impressão que tinha de esta ser uma leitura demasiado comercial, como acontece vulgarmente com os fenómenos literários.

É fácil perceber porque os jogos da fome têm um sucesso tão grande. A leitura é extremamente viciante, tem personagens carismáticas e o universo distópico apresentado é ainda mais interessante. Não sei até que ponto será inovador no género, porque não sou leitora assídua de livros de ficção científica, mas o conceito agradou-me bastante. 

Até porque se, numa primeira leitura, o livro parece ser apenas um grupo de crianças a lutar pela sobrevivência, vivendo o leitor a adrenalina de descobrir o vencedor, num ponto de vista mais aprofundado, o contexto social e político apresentado é também ele digno de nota. À maioria dos leitores mais jovens a adrenalina e a luta pela sobrevivência poderão eclipsar algumas conversas e acções que são muito mais do que aparentam. Não sei como a autora irá desenvolver este tópico político/social, mas estou desejosa de ler o segundo livro o quanto antes.

Do meu ponto de vista, mesmo tendo em conta o público-alvo dos livros, sinto que as personagens poderiam ser melhores construídas, pois a sua linearidade contribui para alguma previsibilidade na leitura, assim como preferiria que o livro fosse narrado na 3ªpessoa, mesmo acompanhando maioritariamente a Katniss.

Dito isto, não sendo, obviamente, uma obra-prima, os Jogos da Fome apresentam uma narrativa cativante tanto para o público juvenil como para o young adult, conseguindo tirar o sono ao leitor até este alcançar a última página. 

Classificação: 8/10 - Muito Bom


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Mil sóis resplandecentes, de Khaled Hosseini


http://dmagia.blogspot.pt/2012/03/opiniao-mil-sois-resplandecentes.htmlSinopse: Há livros que se enquadram na categoria de verdadeiros fenómenos literários, livros que caem na preferência do público e que são votados ao sucesso ainda antes da sua publicação. Há já algum tempo que se ouvia falar de Mil Sóis Resplandecentes, do afegão Khaled Hosseini, depois da sua fulgurante estreia com O Menino de Cabul, traduzido em trinta países e agora com adaptação cinematográfica em Portugal. A verdade é que assim que as primeiras cópias de Mil Sóis Resplandecentes foram colocadas à venda, o romance liderou o primeiro lugar nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Alemanha, Holanda, Itália, Noruega, Nova-Zelândia e África do Sul, estando igualmente muito bem classificado no Brasil e em França. A própria Amazon americana afirmou que há muito tempo não tinha visto um entusiasmo tão grande a propósito de um livro. Devido ao elevado número de encomendas, nos Estados Unidos, foram realizadas cinco reedições ainda antes do livro chegar às livrarias e na primeira semana após a publicação, já tinham sido registadas um milhão de cópias em circulação. É pois um caso verdadeiramente arrebatador que combina preferências populares potenciadas pelo efeito de passa-palavra às melhores críticas internacionais. Confirmando o talento de um grande narrador, Mil Sóis Resplandecentes passa em revista os últimos trinta anos no Afeganistão através da comovente história de duas mulheres afegãs casadas com o mesmo homem, unidas pela amizade e pela dor proveniente dos abusos que lhes são infligidos, dentro e fora de casa, em nome do machismo e da violência política vigente durante o regime taliban, mas separadas pela idade e pelas aspirações de vida. Um livro revelador, que aborda as relações humanas e as reforça perante reacções de poder excessivo e impunidade.

A minha opinião: Parti para este livro sem ter feito uma pesquisa prévia nem ter ouvido falar dele. Aconteceu simplesmente o livro destacar-se no meio de tantos outros na estante da biblioteca. Um pequeno risco que valeu a pena correr.
 

Mil Sóis Resplandecentes narra uma história belíssima num Afeganistão fragmentado pela guerra e pela mente. Sabendo pouco da realidade que assolou o país nas últimas 3 décadas, este livro foi uma excelente ponte para conhecê-la. 

Cativante do início ao fim, seguimos as vidas de Mariam e Laila, duas mulheres de gerações diferentes cujas vidas se acabam por enlaçar. Estas personagens, e tantas outras secundárias, encontram-se muito bem construídas e muitas são as vezes em que nos comovemos com as suas tristes sinas ou nos alegramos com os pequenos prazeres que lhes é permitido desfrutar. Mariam, filha bastarda de um senhor abastado de Herat, vive uma vida onde rapidamente a sua inocência de criança é transformada devido à repressão que sofre. A sua história de vida, injusta, revela uma mulher de nobre carácter. Por seu lado, Laila, nascida em Cabul numa família acolhedora, mostra também a importância de uma educação encorajadora, pensando que as portas lhe poderiam estar abertas. Porém, tal como na vida, as adversidades têm lugar em momentos pouco oportunos, impedindo-nos de realizar os nossos sonhos nesse momento. São assim altas as barreiras que Laila tem de ultrapassar para poder ser feliz. 

Enquanto mulher, as suas vidas impressionaram-me ainda mais, por contactar, ainda que ao de leve, com a realidade cruel de ser mulher no Afeganistão naquele período.
Como referi, o conhecimento que tinha sobre o período e local relatados é reduzido, pelo que não consigo certificar que o que é relatado é verosímel. Porém, na perspectiva de dar a conhecer a população afegã, algumas das suas dificuldades, medos, ambições, considero que o livro cumpre o seu papel eximiamente. A pesquisa que efectuei mais tarde sobre os locais relatados e alguns dos acontecimentos veio confirmar a ideia com que fiquei no livro, o que foi bastante enriquecedor. Mas mais enriquecedor ainda foi o facto de ver estes acontecimentos mais na perspectiva afegã, porque a perspectiva que nós, europeus, temos destes acontecimentos que tiveram lugar no Afeganistão é parcial e é nos difícil compreendê-los à luz do nosso contexto. 


Recomendo. Para a estreia nas minhas leituras de Khaleed Houseini, fiquei muito bem impressionada. Lerei certamente outro livro dele no futuro.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Filho de Thor, de Juliet Marillier


Sinopse: Depois do sucesso obtido com a trilogia Sevenwaters, a Bertrand apresenta a nova série de Juliet Marillier A Saga das Ilhas Brilhantes, com o primeiro volume intitulado O Filho de Thor Eyvind sempre quis ser um dos maiores guerreiros viquingues – um Pele-de-Lobo – e lutar pelo seu chefe em nome do deus Pai da Guerra, Thor. Não concebe outro futuro mais glorioso. Mas o seu amigo Somerled, um rapaz estranho e solitário, tem outros planos para o futuro. Um juramento de sangue feito na infância força estes dois homens a uma vida de lealdade mútua.
 A um mundo de distância, Nessa, sobrinha do Rei dos Folk, começa a aprender os mistérios da sua fé. Nem a jovem sacerdotisa nem o seu povo imaginam o que lhes reserva o futuro.
 Eyvind e Somerled parecem destinados a seguir caminhos diferentes. Um torna-se um feroz servidor de Thor e o outro um cortesão erudito. Uma viagem chefiada pelo respeitado irmão de Somerled, Ulf, junta de novo os dois amigos, que acompanham um grupo de colonos que se vai instalar numas ilhas maravilhosas do outro lado do mar. Quando um facto trágico acontece a bordo de um dos navios, Eyvind começa a suspeitar de que talvez não tenha sido um acidente...

A minha opinião: Já tinha saudades de ler Juliet Marillier. Os seus romances que enlaçam fantasia e tradições celtas são, sem dúvida, um prazer de ler. Apesar da trilogia Sevenwaters, que li há uns anos, ter sido maravilhosa, o que coloca sempre altas expectativas em relação aos livros desta autora, o Filho de Thor revelou-se também num livro com poderosas mensagens e personagens fascinantes. 

Neste livro, Juliet apresenta-nos uma narrativa que tem lugar na Noruega e nas ilhas Órcades, a norte da Escócia, onde viviam os pictos antes destas serem ocupadas pelos vikings. Existe assim um ligeiro fundo histórico, não só a nível da ocupação das ilhas, mas também noutros aspetos, como a existência dos guerreiros que recebiam o chamamento cego (não de Thor mas de Odin) que os levava à sede da guerra. O facto é que estes detalhes encontram-se muito romanceados, não sendo a mais-valia do livro, apesar de fornecerem um pano de fundo interessantíssimo.

Neste cenário, acompanhamos então a expedição de Ulf, pertencente ao povo norueguês, para as ilhas brilhantes, onde vivem os Folk, povo muito antigo que tem uma relação íntima com a natureza daquelas ilhas e que, se ao contrário dos noruegueses não prima pelas armas, prima pela sua sabedoria. Curiosamente, é também este contraste que se verifica entre Eyvind e Somerled, dois jovens que partem com Ulf para estas ilhas e que partilham um juramento de sangue. Somos assim presenteados com personagens educadas em culturas bastante diferentes que têm contudo de descobrir como será a sua coexistência naquelas ilhas.
N' O Filho de Thor , as personagens são assim levadas a situações que nos levam a reflectir sobre o poder da manipulação e da mentira, a fronteira entre a lealdade e traição, a beleza da justiça e, sobretudo, o desafio da compreensão de culturas tão diferentes.
Os dilemas da personagem que mais surpreende pela sua evolução, Eyvind, são reais e, com outros contornos, todos nós, como ele, já estivemos em posições onde tivemos de tomar escolhas que não queríamos tomar em prol do que sabíamos estar certo. Por dar a entender, no início, que é uma personagem linear, a sua adaptabilidade e coragem surpreendem imenso e mostram que um bom coração nunca deve ser subestimado.

Do lado dos Folk, também se encontram personagens fascinantes. O rei Engus, Rona, Nessa, Kinart, todos surpreendem pela sua coragem que se demonstra de maneiras tão diferentes, porque eram menos fortes, mais velhos ou mais impulsivos e menos experientes, sentindo no entanto que pertenciam a algo maior do que eles e, como tal, teriam de ter a persistência necessárias para permanecer. Nessa, em especial, é uma personagem feminina marcante que, por incorporar o espírito de comunhão com a natureza das ilhas, me fez instantaneamente gostar dela.

O único ponto negativo a apontar é uma certa previsibilidade ao longo do livro. Não querendo transparecer que não tenham existido momentos em que fui surpreendida, o facto de, no final, parecer que tudo correu tão bem, apesar dos Folk praticamente dizimados, conferiu-me um sentimento de uma certa irrealidade. A meu ver, o final poderia ter sido melhor explorado.
 
Porém, houve tantas mensagens belíssimas, tantos contos celtas subtilmente colocados na narrativa, tantos momentos de sofrimento com as personagens, até mesmo de desilusão e tantos outros marcantes. Sendo este o primeiro volume da saga das ilhas brilhantes, tenho uma enorme vontade de ler o seguinte. Enfim, que posso mais dizer, já tinha saudades de ler Juliet Marillier.
Classificação: 8/10 - Muito Bom

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Matar é Fácil, de Agatha Christie

Sinopse: Luke Fitzwilliam não deu qualquer importância àquilo que, para ele, não passava de um fantasioso produto da imaginação de Miss Lavinia Pinkerton, a quem acabara de conhecer no comboio e cuja teoria a levava a dirigirse à Scoland Yard. Segundo a velhinha, as mortes que assolaram a pacata aldeia onde vivia deviam-se à acção de um assassino em série. Mas Lavinia não se ficava por aqui e acreditava conhecer a identidade da próxima vítima: Dr. Humbleby, o médico local. Algumas horas depois, Miss Pinkerton morre vítima de atropelamento. Mera Coincidência? Luke sentia-se inclinado a acreditar que sim… até que ao ler o The Times se depara com a notícia da inesperada morte do Dr. Humbleby…

A minha opinião: Um policial com o selo Christie é uma garantia de uma boa leitura e Matar é fácil não foi exceção. Apesar de não contar com a intervenção das habituais personagens - Poirot ou Miss Marple - nem de Luke ser propriamente um detective excepcional, o enredo e personagens eram apelativos e o interesse por descobrir o assassino por detrás de tantas mortes não cessa até à sua descoberta, como aliás já é habitual.

Neste livro, Luke é abordado numa viagem de comboio por Lavinia Pinkerton, que lhe dá a conhecer o elevado número de mortes que está a ocorrer na sua aldeia. Após o seu atropelamento, Luke decide ir para a referida aldeia, a fim de descobrir se a história da velhinha teria um fundo de verdade ou se seria apenas fruto da sua imaginação. Rapidamente se apercebe que os "acidentes" que causaram estas mortes tratavam-se, na realidade, de assassinatos e inicia assim a sua investigação. 

O ambiente pacato da aldeia aliado à inexperiência de Luke como detective (a minha lista de suspeitos e motivos era bastante semelhante à sua) tornam a leitura bastante interessante, levando-nos a crer que a descoberta da identidade do assassino estará ao nosso alcance. Porém, trata-se de Agatha Christie e os pormenores a que não demos atenção são aqueles que, no final, nos fazem ver que o assassino é inequivocamente o que ela aponta e não as nossas (várias) hipóteses.

Mas o mais divertido foi o facto de que Matar é Fácil mostra que, se pensamos que é difícil matar, desenganemo-nos. Tal como Lavinia afirma na viagem de comboio, "Matar é muito fácil... desde que as suspeitas não recaiam sobre nós. E sabe, a pessoa em questão é precisamente a última de quem alguém suspeitaria!"

Agatha Christie é, portanto, uma autora recomendadíssima.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

sábado, 19 de julho de 2014

A rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/a-rapariga-que-inventou-um-sonho/9789724617909/
Sinopse: Em A Rapariga que Inventou Um Sonho, o autor do best-seller Kafka à Beira-Mar envolve a fantasia com a mais natural das realidades. Do surreal ao mundano, estas histórias exibem a sua habilidade de transformar o curso da experiência humana na mais pura e surpreendente arte literária.
Há corvos animados, macacos criminosos, um homem de gelo… Há sonhos que nos moldam e coisas que sempre sonhámos ter… Há reuniões em Itália, um exílio romântico na Grécia, umas férias no Havai… Há personagens que se confrontam com perdas dolorosas, outras que se deparam com distâncias inultrapassáveis entre os que querem estar o mais próximo possível.
Quase todas as histórias são melancólicas, com personagens submersas pela solidão. Murakami junta os seus temas favoritos: os acontecimentos inexplicáveis (o tal toque de fantástico que provoca por vezes a sua inclusão na corrente do realismo fantástico), as coincidências, o jazz, os pássaros e os gatos. Tal como foi escrito no Los Angeles Times Book Reviey, "Murakami abraça o fantástico e o real, cada um com a mesma envolvência de intensidade e luminosidade."

A minha opinião:  Não me considava uma fã de contos. Sempre preferi romances que, por serem mais longos, eram, a meu ver, mais ricos no que dizia respeito ao estabelecimento duma ligação com as personagens/história. Foi por isso que, quando peguei neste livro há uns meses atrás, li apenas o primeiro conto e deixei-o de lado.

Por alguma razão decidi retomá-lo e, desta vez, não consegui parar. Corrijo, a leitura em si não foi rápida, afinal de contas, trata-se de Murakami e os contos que mais me chamaram a atenção exigiram uns momentos de reflexão pós-leitura. Acontece, porém, que houve uma interseção entre o meu estado de espírito e a atmosfera surreal murakamiana de tal modo que o primeiro conto acabou por ser um dos meus preferidos.


Quem conhece Murakami reconhecerá muitos elementos dos seus romances nesta coletânea de contos. No entanto, por serem mais curtos, têm, a meu ver, um maior poder de desconcertar o leitor. As palavras e os sentimentos adquirem um maior significado, os acontecimentos menor importância. Cada conto apresenta em poucas páginas uma história de 2 ou 3 personagens, onde são na verdade a solidão, o medo, o arrependimento ou a melancolia dessas mesmas personagens os verdadeiros protagonistas. E só assim é que, imediatamente, há contos que nos dizem tanto, apesar de nada do que está relatado ser semelhante ao que vivemos.

Destaco os contos "A rapariga que inventou um sonho", A Menina dos Anos","A História de uma tia pobre", "O Sétimo Homem", "Tony Takitani". Todos eles encerram poderosas mensagens sobre a nossa visão do mundo, os desejos, a crueldade do esquecimento, o perigo de não enfrentarmos os nossos medos ou a solidão profunda. 
Não diria que os outros contos não devam ser referidos, mas numa coletânea de 24 contos, há claramente contos que nos apelam mais que outros.

Murakami é um autor que recomendo, ainda que, para primeiro contacto, Sputnik, Meu Amor ou A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol me pareçam mais adequados.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sangue Felino, de Charlaine Harris

Sinopse: Traída pelo seu namorado vampiro de longa data, Sookie Stackhouse, empregada de bar do Louisiana, vê-se obrigada não apenas a lidar com um possível novo homem na sua vida (Quinn, um metamorfo muito atraente), mas também com uma cimeira de vampiros há muito agendada. Com o seu poder enfraquecido pelos estragos do furacão em Nova Orleães, a rainha dos vampiros locais encontra-se em posição vulnerável perante todos aqueles que anseiam roubar o seu poder. Sookie vê-se obrigada a decidir de que lado ficará. E a sua escolha poderá significar a diferença entre a sobrevivência e a catástrofe completa...

A minha opinião: A cada livro que leio, mais me convenço que esta será uma série que acompanharei até ao fim. Sangue Felino revelou-se num livro empolgante e viciante à semelhança dos volumes anteriores.


Em Sangue Felino, Sookie dirige-se a uma cimeira de vampiros, ao serviço da rainha do Louisiana, Sophie- Anne, que será julgada pela morte do marido. Claro está que o envolvimento de Sookie se deve à sua telepatia e também por ser testemunha da referida morte no livro anterior. 

Deste modo, neste 7º volume, Harris desvendou o véu que cobria a organização política e social dos vampiros que tinha vindo a ser aflorada anteriormente, ao mesmo tempo que desenvolveu algumas personagens, como Eric, Pam e a própria Sookie, que me pareceu muito mais perspicaz neste livro. Apesar de Sookie estar com Quinn (sim, a vida amorosa dela continua confusa), penso que o elo que criou com Eric terá consequências interessantes no que diz respeito ao avanço da sua relação, ou assim espero :)

Os pontos altos deste livro, que o distinguem dos anteriores, são, sem dúvida, a descoberta desta personagem que tinha passado meio despercebida nos meus olhos, Pam, assim como a variedade de situações com que Sookie se depara, desde o convívio com os vampiros e a irmandade do Sol até as conversas telepáticas entre Sookie e outro telepata, Barry. 

O próprio final do livro, que justifica o título em inglês (All together dead), merece também destaque, pois fez-me ver, com alguma estranheza, como os poderosos vampiros podiam afinal ser tão vulneráveis.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

Saga Sangue Fresco - opiniões :

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Vento Suão, de Rosa Lobato de Faria

Sinopse: Quando faleceu, a 2 de Fevereiro de 2010, Rosa Lobato de Faria deixou inacabado este Vento Suão. Pôs-se então a hipótese de pedir a um(a) autor(a) das suas relações que imaginasse um desenvolvimento para a história que a morte não deixara chegar ao fim e terminasse o livro inacabado. Depressa se concluiu, no entanto, que tal não era a melhor solução - primeiro, porque não se tinha a certeza de que a autora aprovasse essa inclusão de uma voz alheia no interior do seu próprio fluir narrativo; depois, porque, apesar de inacabado, o romance tinha o desenvolvimento suficiente para se deixar ler como um todo com sentido. Aqui fica, pois, este Vento Suão tal e qual como Rosa Lobato de Faria o deixou. E como derradeira homenagem a uma escritora cuja obra teve como eixos fundamentais " a força da vida, o conhecimento profundo da realidade e do meio em que se agitam os seus fantoches ficcionais, o domínio das minúcias, o fôlego narrativo, a irrupção imparável de um vento negro de violência que impões uma aura de tragédia intemporal ao que parece quase inócuo."

A minha opinião: Este livro cheira a despedida. 

Sabemos e sentimos desde o início que este é um livro inacabado, pelos traços estilísticos ainda em bruto, onde certamente haveria arestas por limar e pela história que nos deixa assim, subitamente, com tanto por contar.

O livro inicia-se com a reunião de Sofia e Luísa, duas amigas de infância do Alentejo, que acabaram por crescer separadas uma da outra, mas cujas memórias da infância partilhada não esqueciam. Os seus sonhos de criança tinham muito em comum, como é normal nas amigas de tenra idade, mas as suas vidas acabaram por tomar rumos diferentes. É curioso que, tal como n' Os Pássaros de Seda, as personagens são conhecidas, logo no primeiro capítulo, sem que saibamos "por que caminhos " chegaram ali.

Atenção : As secções [] são as minhas considerações sobre o rumo que a história poderia tomar, apenas com base no que li, podem conter revelações sobre o enredo.

As duas enfrentam problemas. Sofia, por rebeldia interior, aceita casar-se com um homem que mal conhece, tornando-se numa vítima doméstica que parece não querer libertar-se desse abuso. [A meu ver, esta personagem iria sofrer um grande desenvolvimento nas páginas que se seguiriam se o livro não acabasse, porque penso que a sua independência  e vontade de viver da juventude, sugadas pelo marido, ressurgiriam. O choque inicial e a culpa pela morte de Mateus seriam substituídos por um alívio interior e pela vontade de sair da casa que partilhara com ele. Sofia começaria de novo, na casa da avó, lembrando-se ainda carinhosamente dos criados que, tão fielmente, na vida anterior, a tinham acompanhado, mas com a vontade de viver renovada.]

Luísa, pelo seu lado, libertou-se de Zé, o homem que amava e que a traiu, apesar de toda a sua dedicação. Ao regressar ao Alentejo, esperam-na 10 anos de felicidade, ao lado de Duarte. [A meu ver, a história de Luísa seria mais desenvolvida se o livro tivesse terminado, sendo muito interessante perceber o que se seguiria na sua vida, após a sua  felicidade ter sido arrancada, assim, sem aviso. Como se sabe, pelo primeiro capítulo, ela regressa a casa dos pais, com os filhos. Porém, seria o seu caminho até lá que nos faria a nós, leitores, conhecer esta personagem, porque é nos momentos de adversidade que se revela o carácter das pessoas e as suas motivações.]

Por conhecer um pouco de Rosa Lobato de Faria, penso que este livro encerraria uma poderosa mensagem sobre a amizade de infância duradoura e a sua persistência perante as adversidades da vida, [que seria evidente quando as duas vidas se articulassem, novamente, com o regresso de ambas às origens].

Vento suão lembra a importância de mantermos junto a nós aqueles que amamos e que nos querem bem. E lembra também uma flor colhida antes do tempo. Uma bela escrita ainda em bruto, onde tanto ficou por dizer.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

Confesso que a classificação que pensei antes de terminar a minha análise sobre o livro era inferior. Porém, este livro deu-me uma nova experiência. Terminar a história do livro foi um exercício maravilhoso que me relembrou as subtilezas da escrita de Rosa Lobato de Faria e o facto dos seus livros não primarem pela sua imprevisibilidade, mas sim pela sua habilidade de nos apresentar uma história mundana, real que nos faz sempre relembrar situações, pessoas  ou ações que nos são familiares.

Felizmente, ainda tenho alguns livros dela para ler :)

Para aqueles que ainda não leram nada  de Rosa Lobato de Faria, recomendaria antes outros livros da autora, para se ambientarem ao seu estilo.

Os que leram Vento Suão, qual é a vossa opinião sobre a continuação da história?

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A Flor Oculta, de Pearl S. Buck

Sinopse: A Flor Oculta é uma bela e pungente história de amor, cujos protagonistas - uma japonesa e um americano - vivem um drama intenso e doloroso. Mas, das ruínas do amor aniquilado pelos preconceitos, brota a "flor oculta", o pequeno Lennie, que vai encontrar, à sua volta, a dádiva generosa da mais profunda simpatia humana

A minha opinião: Parti um pouco à aventura para a leitura deste livro, pois o único que sabia era que a autora tinha ganho o prémio nobel. De facto, desde cedo se nota a qualidade da escrita de Pearl S. Buck. As partes descritivas intercalam com as narrativas na dose certa, fornecendo ao leitor imagens belíssimas ou cruamente realistas do que está a ocorrer. 

N' A Flor Oculta, Pearl S. Buck apresenta-nos a história de Josui, uma japonesa de uma família que vivera na Califórnia, que conhece Alenn, um soldado americano que se encontra, por um período, no Japão. Os dois apaixonam-se, todavia terão de lutar contra o preconceito racial que sofrem, quer no Japão, quer nos Estados Unidos. Esta questão da mistura de raças era algo que preocupava a autora, o que se espelha, então, nos livros que escreveu. Deste modo, ainda que, agora, estes não sejam tão revolucionários quanto isso, servem para, de facto, nos relembrarmos da profunda mudança de mentalidade que ocorreu no século XX e que, contudo, deve continuar a ocorrer, pois o caminho para uma completa igualdade é, ainda, longo.

A Flor Oculta apresenta brilhantemente um confronto de filosofias de vida - japonesa e americana - bastante realista, sem cair em algo desinteressante. As personagens são muito credíveis e representam magnificamente os seus papéis, revelando-se submissas e resignadas ao destino, em certas alturas, mas, noutras, rebeldes e ansiosas por tomar ação, sendo que a autora consegue fazer transparecer esses estados de espírito na perfeição. Pelos vários momentos que vivem as personagens, é impossível não rever nelas outros acontecimentos relacionados connosco ou com quem conhecemos - a sensação de inadptação, a incompreensão devida a preconceitos por parte de quem nos ama, a influência da mentalidade da sociedade ou a sensação de que os esforços feitos foram inúteis, de que, afinal, remamos contra a maré. Neste livro, a reflexão é motivada por uma temática que faz, de algum modo, lembrar Madame Butterfly, devido à angústia de Josui  por ficar, para sempre, entre a cultura nipónica e americana, nunca pertencendo verdadeiramente a nenhuma. O mais incrível, porém, é a evolução abismal da personagem ao longo do livro, sendo o seu sofrimento quase palpável. Porque todos nos sentimos, nalgum momento, na terra de ninguém.

Este livro vale, assim, não por uma história imprevisível, ainda que dolorosamente bela, mas pela impressão que provoca no leitor, pela reflexão que nele motiva. Talvez ter gostado bastante deste livro se deva a uma ótima combinação entre o livro e a altura em que o leio, mas o facto é que as personagens e a sua história acabaram por me tocar mais do que estaria à espera, agora que olho objetivamente para aquilo que li. Porém, ao escrever a crítica, tenho plena consciência de que, afinal de contas, não é um nobel que faz uma boa experiência de leitura, é a conjugação de milhares de variáveis. Não conheço mais de Pearl S. Buck, mas é uma autora cujos livros tenciono descobrir.


Classificação: 8/10 - Muito Bom

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os Pássaros de Seda, de Rosa Lobato de Faria

Sinopse: Graças à qualidade eterna do carácter de minha mãe e ao consequente travão que ela pôs à entrada do "progresso" naquela casa, a Pedra Moura guardou para sempre a sua transcendência de lugar mágico. O reino dos contos de fadas e dos autos de Natal, o mundo dos antigos aromas e sabores, o sítio da infância, o refúgio ideal para nascer e morrer.
Assim terminam as memórias de Mário, um dos protagonistas de Os Pássaros de Seda, um livro soobre a condição humana, que opões os valores perenes da infância, do maravilhoso e do amor à precariedade das paixões e dos transes da fortuna.
Um magnífico romance que, depois de O Pranto de Lúcifer, confirma a sua autora como uma presença incontornável no panorama da nova ficção portuguesa.

A minha opinião: Belíssimo. Este pequeno livro de 200 páginas encerra em si uma história mundana, de um amor silenciosamente incorrespondido. Algo cliché, é certo, mas em Rosa Lobato de Faria o que nos toca não é um enredo com grande mistérios e acontecimentos imprevisíveis. O que nos toca, sim, é a beleza da escrita, os pormenores e os detalhes que transformam, aos ouvidos, a prosa em poesia.

Os Pássaros de Seda  são, praticamente, as memórias de Mário, filho de uma criada, que vive com ela, o tio-avô - Zebra - e Diamantina, que foi adoptada pela mãe e o tio. Companheiros inseparáveis enquanto crianças, Mário cedo evoluiu para um amor sincero por Diamantina, a qual não via em Mário senão um irmão. A vida de ambos segue rumos muito diferentes, mas sendo Diamantina a protagonista da vida de Mário é, também, ela a protagonista deste livro.

Os Pássaros de Seda apresenta-nos, assim, uma história que nos dá asas para reflectir sobre as relações humanas, os erros do passado, o apreço que damos, mas principalmente, o que não damos ao que nos rodeia, e o facto das nossas memórias serem feitas de pequenos momentos, mas esses momentos fazerem toda a diferença. No fundo, Os Pássaros de Seda fala-nos da vida.

E essa reflexão deve-se às personagens que nos lembram os nossos próprios amigos, namorados, irmãos, pais, avós, desde os contos do tio Zebra que, metaforicamente, descrevem tantos momentos e erros nas vidas de Diamantina e Mário, aos pensamentos das personagens, quer principais quer secundárias, que nos ferem o coração de tão dolorosamente verdadeiras e aplicáveis à nossa vida.

Ao acabar de lê-lo, a única palavra que tenho em mente é bravo. O final dói pela morte de Mário, uma personagem cuja intervenção quase parece um detalhe na história, mas que nos proporcionou um livro belíssimo que nos envolve subtilmente mas de maneira incontornável.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Caim, de José Saramago



Sinopse (contracapa): Pela Fé, Abel ofereceu a Deus um sacrifício melhor do que o de Caim. Por causa da sua fé, Deus considerou-o seu amigo e aceitou com agrado as suas ofertas. E é pela fé que Abel, embora tenha morrido, ainda fala. (Hebreus , 11-4)



A minha opinião: Sendo este o terceiro livro que leio de Saramago, posso confirmar que a sua escrita é, de facto, sublime. Ainda que a primeira impressão seja de estranheza, assim que entramos no esquema, ansiamos por esta prosa fluida e riquíssima que tanto oscila entre momentos de sabedoria popular e expressões corriqueiras e momentos com referências que caracterizam, claramente, um narrador muito culto.


Em Caim, observamos essencialmente o confronto entre o Homem e o Deus do antigo testamento. Para tal, Saramago apresenta  episódios de vários livros do antigo testamento, como a Criação, a Torre de Babel, a batalha de Jericó, o sacrifício de Isaac, a arca de Noé, entre outros. Episódios que, especialmente para aqueles que tiveram uma educação católica, são muito familiares. Com este livro, confirma-se que o conhecimento de Saramago sobre a Bíblia e a religião católica é notável, pelo à vontade demonstrado pelo narrador na manipulação dos episódios, deixando, no entanto, muitos pormenores bíblicos intactos, pormenores esses que demonstram como se Saramago baseou na Bíblia para  escrever Caim.

Confesso que admiro a coragem de Saramago ao publicar certas passagens deste livro. Ainda que não as ache propriamente corrosivas, sei que são capazes de chocar muitas pessoas. O mais curioso é que, muitas vezes, próximo de um insulto há uma certa censura do que acabou de ser dito, como se, a meio da argumentação houvesse a visão castradora da sociedade que reprova quem se revolta contra Deus. No fundo, e, para mim, esse foi o único problema deste livro, aquilo que foi apresentado não representou nada de novo. Tendo tido uma educação católica, a repulsa pelo Deus vingativo e injusto do antigo testamento que conscientemente quer provar a fé dos homens é algo que me acompanha desde que comecei a questionar a minha fé e que, aliás, me faz ver esse Deus como uma mera criação humana para aquilo que o antigo testamento realmente serve - uma espécie de histórias com princípios morais que devem ser seguidos como existem as fábulas que todos lemos em crianças.

Posto isto, Caim é uma leitura que, de facto, se destaca por apelar ao lado crítico do leitor. A visão satírica e irónica deste duelo argumentativo entre Caim e Deus não deixa o leitor passivo, ainda que o facto de Deus ser apresentado como vilão não seja propriamente chocante, pelas razões referidas acima.  

Caim prima assim, pela irreverência da escrita, pela manipulação dos episódios bíblicos  e pelo final brilhante que fazem deste livro um convite à reflexão sobre a religião e esse Deus vingativo cujas histórias são passadas de geração em geração desde há dezenas de séculos. "mas algo sei, sim algo devo ter aprendido, Quê, Que o nosso deus, o criador do céu e da terra, está rematadamente louco, porque só um louco sem consciência dos seus actos admitiria ser o culpado directo da morte de centenas de milhares de pessoas e comportar-se depois como se nada tivesse sucedido."

Classificação: 8/10 - Muito Bom

domingo, 21 de julho de 2013

Flatland, de Edwin A. Abbott



Sinopse: Flatland é um romance revolucionário onde grande parte da acção se passa num universo a duas dimensões, habitado por toda a espécie de figuras geométricas. O narrador do livro, ele próprio um quadrado residente neste imenso território bidimensional, leva-nos a percorrer com notável rigor matemático outros mundos com apenas uma dimensão, ou com três, e entreabre o caminho para discutir outras dimensões. Se cientificamente Flatland é sem dúvida um livro excepcional, antecedendo em vários anos conceitos discutidos pela física moderna — como a relação espaço-tempo —, literária e teologicamente é também um testemunho notável. E se, a certo ponto, pode ser chocante a aparente misoginia do autor, cedo se torna evidente que estamos perante uma das mais mordazes sátiras sociais aos hábitos vigentes durante a época vitoriana. 


A minha opinião: Flatland é um daqueles livros que, apesar de ter uma pequena dimensão, encerra em si conceitos capazes de mudar a visão do leitor. 
Edwin Abott apresenta, assim, a sociedade que habita Flatland, um mundo a duas dimensões, constituída por retas, triângulos, quadrados, pentágonos etc. 
São vários os aspetos desta sociedade a duas dimensões que nos deixam a pensar. Isto, porque, no fundo, estamos a observar a nossa mentalidade aplicada a um mundo com menos 2 dimensões: este apresenta também uma sociedade estratificada, com mecanismos de ascensão social, a diferença entre homem e mulher está também visivelmente representada, a resistência a mudar um preconceito/ capacidade de conseguir ver o mundo sem nos prendermos pelo conhecimento que julgamos possuir é algo quase que inevitável tanto para os habitantes de Flatland como também para nós, seres humanos. Deste modo, à medida que avançamos no livro, apercebemo-nos que o mundo representado, tão diferente e , de certa forma, difícil de imaginar na nossa mente, vai começando a assemelhar-se aos contornos do nosso mundo, tornando-se impossível não questionar se também nós seremos obtusos em relação à existência de realidades com mais dimensões. 
Porém, o questionamento continua. Quando o quadrado, personagem que acompanhamos na nossa descoberta de Flatland, visita a Lineland ou contacta com a Spaceland, tendo uma visão mais alargada na primeira, e mais limitada na segunda, são várias as perguntas que assaltam o leitor: até que ponto estamos limitados na nossa visão sobre a realidade? Serão as nossas leis da física e matemática universais ou só se aplicam à nossa realidade restrita, ao sistema em que nos encaixamos? Até onde poderemos ser incrivelmente ignorantes por nos recusarmos a deixar os nossos preconceitos?
Não, esta obra de ficção matemática não nos responderá a estas perguntas, mas fará estas e outras mais àqueles que se atreverem  a visitar este mundo. Apesar de ter ouvido falar pouco deste livro, recomendo-o, sem reservas.

Classificação : 8 /10 - Muito Bom

domingo, 28 de agosto de 2011

Dead to the World (Sangue Oculto), de Charlaine Harris

Sinopse: Sookie terminou a sua relação com Bill após considerar que ele a traiu. Um dia, quando sai do trabalho para casa, depara-se com um vampiro nu e desorientado. Rapidamente ela percebe que ele não tem a mínima ideia de quem é nem para onde vai, mas Sookie sabe: ele é Eric e parece tão assustador e sexy - e morto - como no dia em que o conheceu. Mas agora como Eric está com amnésia, torna-se doce e vulnerável, e necessita da ajuda de Sookie - porque seja quem for que lhe tirou a memória, agora quer tirar-lhe a vida. A investigação de Sookie leva-a a uma batalha perigosa entre bruxas, vampiros e lobisomens. Mas pode existir um perigo ou ameaça ainda maior - ao coração de Sookie, porque estando Eric mais gentil e mais doce... é muito difícil resistir.
A minha opinião: Este quarto livro da saga surpreendeu-me. Apesar de ser mais parado do que o habitual, não perde a capacidade de nos prender até à última página. Neste volume, Sookie tem nas suas mãos dois problemas para resolver: o feitiço lançado pelas bruxas em Eric, que o deixa amnésico e com uma personalidade bem diferente, assim como o desaparecimento do seu irmão, Jason. Só posso dizer que, como fã incondicional de Eric, adorei o protagonismo que lhe foi dado e o facto de Bill ter (quase) desaparecido.
Em Dead to the world, houve mais um pequeno grande avanço no conhecimento deste mundo sobrenatural (não só em relação às novas criaturas como as bruxas, wiccans e fadas, mas também em relação aos já conhecidos metamorfos e lobisomens). Charlaine Harris sabe como prender o leitor e levantar gradualmente o véu, pelo que estou muito curiosa em relação ao que me espera nos outros livros, especialmente para conhecer o papel das fadas neste mundo sobrenatural.
E por fim, aquilo que digo constantemente em relação aos livros desta saga super consistente. É sempre difícil adivinhar o que nos espera na página seguinte, mas certamente será uma boa mistura de mistério, acção, fantasia e humor. O facto de ler a saga na sua língua original só a torna ainda melhor. Neste volume em particular, Harris deu ênfase às minhas personagens favoritas, pois Sookie continua como uma excelente narradora, sendo que consegue perfeitamente encaixar-nos na sua cabeça e Eric mostra uma nova faceta, mas não menos apetecível. Dito isto, espero ler o próximo livro brevemente, pois entre outras coisas, a história de Jason foi deixada demasiado em aberto para não se ter uma grande vontade de saber o que lhe acontece.
Classificação: 8/10 - Muito Bom

Saga Sangue Fresco - opiniões :

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Alma Trocada, de Rosa Lobato de Faria

Sinopse: É um lugar comum dizer-se que determinada orientação sexual não é uma escolha, porque, se fosse, ninguém escolheria o caminho mais difícil. Foi esse caminho mais difícil que Teófilo teve de percorrer, desde a incompatibilidade com os pais, aos desencontros dentro de si próprio, chegando mesmo a acreditar que alguém lhe tinha trocado a alma...

A Minha Opinião: Após ter lido A Trança de Inês, um livro da autora que simplesmente adorei, tinha expectativas elevadas em relação a este, não porque a temática me chamasse particularmente a atenção, mas porque já tinha saudades da belíssima expressão escrita de Rosa Lobato de Faria.


Pela segunda vez, apaixonei-me pela prosa da autora. Alguma parte da acção do livro passa-se no Alentejo e devo dizer que a descrição daquele local era maravilhosa, tão credível e tão real, tão chamativa. E a forma como o livro está escrito faz simplesmente com que o leitor se escape da sua mente e entre dentro da cabeça da personagem principal, Téo, sem quase se aperceber.

No entanto, (talvez um pouco pelas expectativas que tinha) o próprio enredo não me chamou tanto a atenção. Houve, certamente, momentos interessantes e personagens com as quais simpatizei, como a avó Jacinta, mas nada de muito memorável se o comparar com A Trança de Inês.

Não deixa de ser um bom livro. Apesar de ter sido em algumas partes demasiado mundano, devido a certos acontecimentos que, a meu ver, não trouxeram nada de novo ao livro, a mensagem durante o mesmo era belíssima: "a alma é indivisível e una, a alma é tua, Teófilo. Tens que aprender a viver com ela".

A Alma Trocada não me causou a mesma impressão que A Trança de Inês, mas continua a ser um livro que prima pela expressão escrita e o problema com que lida (que não me parece ser exclusivamente a homossexualidade, mas sim o sentirmo-nos bem com o que somos e aceitarmo-nos).

Gostei. Rosa Lobato de Faria é uma autora que vou ler brevemente e que aconselho vivamente.

Classificação: 8/10 (Muito Bom)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Crime no Campo de Golfe, de Agatha Christie

Sinopse: Um urgente pedido de ajuda leva Poirot a França. Infelizmente, o detective não chega a tempo de salvar o seu cliente, cujo corpo é encontrado numa sepultura aberta num campo de golfe. Mas porque é que o morto enverga o sobretudo do filho? E a quem se destinava a apaixonada carta de amor descoberta no seu bolso? Antes que Poirot consiga responder a essas perguntas, o caso sofre uma reviravolta com a descoberta de uma segunda vítima.

A Minha opinião: Mais um ponto para a Duquesa da Morte. É impressionante como Agatha Christie continua sem desiludir. Apesar de começar a estabelecer alguns paralelismos entre os seus livros, reconhecendo algumas semelhanças entre os mesmos (algo da fórmula Christie?), o interesse manteve-se e a capacidade de me surpreender continua.

Como pontos fortes deste policial em específico, aponto o facto de, à semelhança de Crime no Expresso do Oriente, este também ter um crime antigo por detrás de todo o trama, crime esse fulcral para a resolução do mistério. Além disso, gostei do facto de haver outro detective envolvido no caso, um detective mais convencional que, claro está, não usa tão bem as celulazinhas cinzentas como Poirot. De resto, o habitual da autora: personagens singulares, uma capacidade de envolver o leitor no ambiente da história e de o manter preso à mesma de vido a umas reviravoltas inesperadas.

Na minha opinião, o livro só peca na escolha do narrador. Achei que a personagem estava ok. Nem gostei nem desgostei, mas depois da enfermeira que narrava o Crime na Mesopotâmia, este narrador soube-me a pouco, porque era um pouco normal demais. Ainda assim, fazia o nosso papel na história, de pessoa que pouco percebe ou não da resolução de um crime, e que se deixa levar facilmente pelas emoções.

Não gostei tanto como Crime no Expresso do Oriente ou O Assassinato de Roger Ackroyd, mas, na minha opinião, é um óptimo mistério na mesma e gostei bastante de o ler.

Classificação: 8/10 (Muito bom)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um deus passeando pela brisa da tarde, de Mário de Carvalho

Sinopse: Lusitânia, séc. III d.C. Neste romance, talvez o mais importante de Mário de Carvalho, tudo se passa numa cidade da Lusitânia, Tarcisis, no momento em que Império Romano começa a soçobrar, devastado por factores internos e externos, as invasões bárbaras e a cristianização. E é num ambiente de decadência que todo o romance se desenrola. Apanhado na vertigem dos acontecimentos e rodeado de sinais que escapam ao seu entendimento, Lúcio Valério, o magistrado supremo é espoliado e perde todo o seu poder. Mário de Carvalho avisa-nos, no começo do romance: "...Tarcisis nunca existiu...", no entanto, devemos estar atentos, sobretudo os detentores do poder, aos sinais dos tempos, para percebermos o que nos acontece.


A Minha opinião: Antes de mais, quero referir que este livro foi lido no âmbito do contrato de leitura da disciplina de português. Ainda que eu tenha tido a oportunidade de o escolher numa lista de 20 livros de autores portugueses, interiormente, a etiqueta de "obrigatório" ao princípio não me deixou desfrutar do livro como o teria feito se fosse uma leitura normal. Para minha surpresa, após o arranque inicial dos primeiros 3 capítulos, já o via como um livro que lia por prazer e não por obrigação.

A história desenrola-se em Tarcisis, um município situado na Lusitânia, na altura em que Marco Aurélio era imperador. No primeiro capítulo, o protagonista, Lúcio Valério encontra-se exilado na sua villa, fora de Tarcisis, após ter exercido o cargo de dúunviro (governador máximo) no município. De seguida Lúcio inicia a analepse, propondo-se a escrever sobre os acontecimentos que levaram ao seu exílio, aquando a sua governação, de modo a apaziguar o seu espírito.

Enquanto dúunviro, Lúcio vai deparar-se com três grandes problemas: o avanço dos mouros que poderão vir a atingir Tarcisis, a seita dos cristãos que ele tenta, de certa forma, proteger do ódio da população e todo o contexto político e o descontentamento social que, a certa altura, Lúcio vai deixar de conseguir controlar tal a forma como os outros dois problemas ocupam as suas mãos. Isto sem esquecer a terrível atracção que sente por Iúnia Cantaber, a cristã mais devota e fanática de Tarcisis.


Gostei bastante do livro. Apesar de não ser um livro viciante, de leitura rápida, prende o leitor e obriga-o a reflectir sobre aquilo que está a ler.
De facto, este livro não tem como propósito relatar acontecimentos verídicos, porém, por aquilo que acontece é inevitável não pensar que, em moldes ligeiramente distintos, dilemas e situações nas quais Lúcio se encontra poderiam não só ter ocorrido na sociedade romana como também numa actual. Isto porque as pessoas mudam o mundo, mas o mundo não muda as pessoas. Os problemas que Lúcio enfrenta não seriam iguais nos dias de hoje, mas a forma como ele actua sobre eles e como ele é visto pelo resto da população por causa dessas acções seriam, sem dúvida, parecidas.

Lúcio é um homem íntegro, fiel aos seus princípios e preocupado em fazer justiça. É um bom romano e acredita no sistema romano, ainda que não se identifique com alguns hábitos da sua cultura, entre os quais os divertimentos. Enquanto governante, claro está, estas características não serviam para ser considerado um bom líder, porque das duas, uma, ou ele fazia o que era justo, ou não agradava o seu povo. E o que acontece na maioria das sociedades se um líder não faz o que o povo quer? O que acontece se um grande governante, justo e com bons ideais, não faz o que o povo e o que os outros políticos querem? Simplesmente não sobrevive, e é afastado.

Não conhecia o autor, mas fiquei muito bem impressionada com este livro. A história é muitíssimo interessante e o enredo é sem dúvida cativante. Porém, aquilo que esconde por detrás é ainda mais rico, porque lida com mais do que a própria história. Não é uma simples historieta. É um livro que obriga o leitor a reconhecer que é curioso como duas sociedades tão distintas, separadas por tantos séculos, possam ter tanto em comum, simplesmente porque as atitudes das pessoas permanecem as mesmas.

Recomendo vivamente àqueles, que, como eu querem ser arrebatados por um excelente livro de um autor português.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Despertar da Magia, de George R. R. Martin

Sinopse: A guerra pelos Sete Reinos continua e a batalha pela capital de Porto Real é a mais sanguinária de sempre. A frota de Stannis Baratheon vê-se encurralada em frente à cidade enquanto barcos carregados de fogovivo são enviados contra ela. Mas os sobreviventes conseguem levar o combate até às muralhas da cidade e todos os sitiados terão de lutar pela vida. Só quando os exércitos dos Tywin e dos Tyrell chegam, um dos lados será definitivamente esmagado. Mas num mundo de traições constantes, quem será que eles irão apoiar?
No Norte, os Stark estão entre a espada e a parede. Várias das suas fortalezas são atacados pelos temíveis homens de ferro e até o castelo de Winterfell é conquistado pelo traidor Theon Greyjoy. Bran e Rickon conseguem fugir, acompanhados por Hodor e alguns companheiros, mas que futuro terão duas crianças numa terra ameaçada pelo Inverno?
Para lá da Muralha, Jon oferece-se para acompanhar um grupo de batedores enviado para encontrar os selvagens, enquanto a principal força da Patrulha da Noite se fortifica junto às montanhas. Mas as coisas correm mal e Jon terá de escolher entre a morte... ou a traição aos seus irmãos!


A minha opinião: Mais um excelente volume das Crónicas do Gelo e do Fogo. Confesso que não correspondeu de todo às minhas expectativas iniciais, pois pensei que este volume iria seguir um certo rumo. No entanto, George R. R. Martin seguiu outro completamente diferente e ainda bem.

A história continua excelente.
A acção prendeu-me muito mais neste volume do que no anterior, as personagens (não só as principais como as secundárias) continuaram a surpreender-me e a qualidade das suas histórias manteve-se.

Além disso, a meu ver, o género (medieval?) fantasioso de Martin ainda melhorou, pela presença de mais elementos de fantasia, o que foi fabuloso. Precisamente por esse "despertar" da magia
- ela sempre esteve lá, mas só agora foi revelado um pouco da mesma - adorei este livro. Apenas fiquei desiludida com a parte da batalha propriamente dita, a descrição não me prendeu especialmente, à excepção de algumas passagens.

E por último, porque falar em Martin sem falar das suas maravilhosas personagens seria estranho nas minhas opiniões, vou começar por Jon. A par de Arya, estas duas são as minhas personagens preferidas. Neste volume em particular, a história de Jon foi a que mais gostei e pelo aquilo que li, estou extremamente curiosa para saber como se vai comportar no exército de Mance Ryder.

Arya. Identifico-me tanto com esta personagem! Nestes 3º e 4º volumes, a sua evolução foi enorme, a história dela tem tanto potencial e foi das que mais gostei de acompanhar ao longo da saga. Não sei o que vai acontecer, mas espero que continue a agarrar-me tanto como tem agarrado.

Tyrion. Perdoem-me, mas fiquei um pouco desiludida pois estava à espera que morresse na batalha. Ainda assim, nestes dois volumes teve um papel fulcral e o seu futuro intriga-me.

Bran. As
minhas opiniões sobre esta personagem têm variado ao longo dos livros. Depois de estar aleijado confesso que perdi algum interesse, mas parece-me que agora vai ser uma personagem muito mais interessante . A partir de agora, a história dos lobos intriga-me ainda mais. Adorei quando eles apareceram no início do primeiro volume e senti logo aí que eram únicos, mas neste momento, parece-me que são ainda mais especiais.

Daenerys. Uma das personagens que mais gostei no 1º e 2º volumes, mas agora sinto que não foi tão desenvolvida como estava à espera. Espero que no próximo livro me surpreenda pela positiva.

Enfim, como podem reparar, estou muito entusiasmada com o rumo desta saga e com um enorme interesse em descobrir o significado de tantas pontas soltas deixadas por George R. R. Martin neste livro. Esta saga é mais do que aconselhada.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

[As partes a branco contêm spoilers]

domingo, 15 de agosto de 2010

Crime na Mesopotâmia, de Agatha Christie

Sinopse: Amy Leatheran é uma jovem enfermeira encarregada de acompanhar o casal Kelsey na sua viagem para Bagdadde. Finda a tarefa para a qual fora contratada, Amy prepara o seu regresso a Londres quando é inesperadamente contratada pelo Dr. Leidner, um arqueólogo de renome, para dar assistencia à mulher, Louise. De facto, Louise é uma pessoa extremamente nervosa e sofre de súbitos e incontroláveis ataques de pânico. No cenário longínquo de uma escavação arqueológica nas margens do rio Tigre, Amy conquista o afecto e a confiança de Louise, que lhe faz confidênciass sobre o seu passado e chama a atenção para os estranhos acontecimentos que ocorrem no acampamento e cuja origem é unanimemente atribuída aos seus próprios problemas nervosos. Mas depressa se torna óbvio que as suas suspeitas estavam correctas. E quando a tensão atinge o seu auge eis que surge o inigualável Hercule Poirot, numa oportuna viagem pela Mesopotâmia. Por entre um labirinto de segredos e mentiras, Poirot parece, desta vez, ter chegado tarde de mais.

A Minha Opinião: Enfim, Agatha Christie é Agatha Christie. É incrível a sua capacidade de nos surpreender mesmo que durante todo o livro estivessemos a fazer o papel de detectives.

O crime, desta vez, é cometido numa expedição arqueológica. Desde cedo gostei do cenário escolhido por Agatha Christie, assim como da voz da narradora, a enfermeira Amy Leatheran.

As personagens, como habitual, eram muito interessantes, especialmente Mrs. Leidner e atmosfera criada era incrivelmente arrepiante (okay, eu sou suspeita, gosto de ler estes livros numa altura um pouco tardia, portanto à partida tudo seria arrepiante, mas eu achei que sim).


Penso que, a nível de mistério, este foi igualmente espantoso ao do Crime no Expresso do Oriente e o desfecho igualmente surpreendente.


Duzentas páginas recheadas de mistério, cenário e personagens magníficos, bem ao estilo de Agatha Christie, impossíveis de largar até à junção de todas as peças do puzzle.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Catarina de Aragão - A Princesa Determinada, de Philippa Gregory

Sinopse: Catarina de Aragão nasce Catarina, Infanta da Espanha, de pais que eram reis e cruzados. Aos três anos, foi prometida ao príncipe Artur, filho herdeiro de Henrique VII de Inglaterra, e é educada para ser Princesa de Gales. Sabe que o seu destino é reinar sobre aquela terra distante, húmida e fria. A sua fé é posta à prova quando o futuro sogro a recebe no seu novo país com uma grande afronta; Artur parece ser pouco mais do que uma criança; a comida é estranha e os costumes vulgares. Lentamente, adapta-se à sua primeira corte Tudor, e a vida como mulher de Artur vai-se tornando mais suportável. Inesperadamente, neste casamento arranjado começa a nascer um amor terno e apaixonado. Mas, quando o jovem Artur morre, ela tem que construir o seu próprio futuro: como pode ser agora Rainha da Inglaterra e fundar uma dinastia? Só casando com o irmão mais novo de Artur, o alegre, mas mimado, Henrique. O pai e a avó de Henrique são contra; os poderosos progenitores de Catarina revelam-se de pouca utilidade. No entanto, Catarina é filha de sua mãe e o espírito lutador é indomável. Fará qualquer coisa para alcançar o seu objectivo; mesmo que tal implique contar a maior das mentiras, e mantê-la.

A Minha opinião: Escusado será dizer que as opiniões sobre os livros desta autora são mais do que boas e que eu, uma incondicional fã de história, estaria mais do que curiosa para ler os mesmos. A conselho da Papillon, decidi visitar os Tudors e mal posso esperar por regressar.

A figura central deste livro é Catarina de Aragão, a filha mais nova dos reis Católicos. A sua vida é-nos contada maravilhosamente por Philippa Gregory. Vemos primeiro Catarina como a Infanta de Espanha, de seguida, a sua vida quando chega a Inglaterra, os seus esforços para adaptar-se, o seu casamento, a sua viuvez, a ambição para alcançar o trono ao qual estava destinada e finalmente, quando se torna Catarina de Aragão, Rainha de Inglaterra. Acompanhamos assim o seu crescimento enquanto pessoa e as suas facetas de estrangeira, mulher e finalmente, governante.


Alternando entre um narrador ausente e um presente, temos a oportunidade de ver os acontecimentos tal como se passaram, mas também tudo aquilo que Catarina poderia ter pensado ou sentido quando estes tiveram lugar. Desta forma, tal como foi Catarina, somos surpreendidos por algumas acções de certas personagens, enquanto ficamos desiludidos com outras, pois estamos de tal forma absorvidos no desenrolar dos acontecimentos, que pensamos com ela.
Philippa Gregory consegue assim transportar-nos perfeitamente para o cenário da época.

A meu ver, o livro só peca no final. Após termos seguido toda a vida de Catarina com tanto pormenor, fiquei com pena que não a tenhamos seguido até ao seu fim. No entanto, este é o único defeito que posso apontar.
Mais uma vez, é muito interessante perceber que, ainda que na sombra, grandes mulheres conseguiram muito mais do que lhes seria, à partida, permitido. Catarina de Aragão fez justiça ao seu nome, como filha de uma das mais importantes mulheres do seu tempo, Isabel, a Católica.

Classificação: 8/10 - Muito Bom