Sinopse: Quando faleceu, a 2 de Fevereiro de 2010, Rosa Lobato de Faria deixou inacabado este Vento Suão. Pôs-se então a hipótese de pedir a um(a) autor(a) das suas relações que imaginasse um desenvolvimento para a história que a morte não deixara chegar ao fim e terminasse o livro inacabado. Depressa se concluiu, no entanto, que tal não era a melhor solução - primeiro, porque não se tinha a certeza de que a autora aprovasse essa inclusão de uma voz alheia no interior do seu próprio fluir narrativo; depois, porque, apesar de inacabado, o romance tinha o desenvolvimento suficiente para se deixar ler como um todo com sentido. Aqui fica, pois, este Vento Suão tal e qual como Rosa Lobato de Faria o deixou. E como derradeira homenagem a uma escritora cuja obra teve como eixos fundamentais " a força da vida, o conhecimento profundo da realidade e do meio em que se agitam os seus fantoches ficcionais, o domínio das minúcias, o fôlego narrativo, a irrupção imparável de um vento negro de violência que impões uma aura de tragédia intemporal ao que parece quase inócuo."
A minha opinião: Este livro cheira a despedida.
Sabemos e sentimos desde o início que este é um livro inacabado, pelos traços estilísticos ainda em bruto, onde certamente haveria arestas por limar e pela história que nos deixa assim, subitamente, com tanto por contar.
O livro inicia-se com a reunião de Sofia e Luísa, duas amigas de infância do Alentejo, que acabaram por crescer separadas uma da outra, mas cujas memórias da infância partilhada não esqueciam. Os seus sonhos de criança tinham muito em comum, como é normal nas amigas de tenra idade, mas as suas vidas acabaram por tomar rumos diferentes. É curioso que, tal como n' Os Pássaros de Seda, as personagens são conhecidas, logo no primeiro capítulo, sem que saibamos "por que caminhos " chegaram ali.
Atenção : As secções [] são as minhas considerações sobre o rumo que a história poderia tomar, apenas com base no que li, podem conter revelações sobre o enredo.
As duas enfrentam problemas. Sofia, por rebeldia interior, aceita casar-se com um homem que mal conhece, tornando-se numa vítima doméstica que parece não querer libertar-se desse abuso. [A meu ver, esta personagem iria sofrer um grande desenvolvimento nas páginas que se seguiriam se o livro não acabasse, porque penso que a sua independência e vontade de viver da juventude, sugadas pelo marido, ressurgiriam. O choque inicial e a culpa pela morte de Mateus seriam substituídos por um alívio interior e pela vontade de sair da casa que partilhara com ele. Sofia começaria de novo, na casa da avó, lembrando-se ainda carinhosamente dos criados que, tão fielmente, na vida anterior, a tinham acompanhado, mas com a vontade de viver renovada.]
Luísa, pelo seu lado, libertou-se de Zé, o homem que amava e que a traiu, apesar de toda a sua dedicação. Ao regressar ao Alentejo, esperam-na 10 anos de felicidade, ao lado de Duarte. [A meu ver, a história de Luísa seria mais desenvolvida se o livro tivesse terminado, sendo muito interessante perceber o que se seguiria na sua vida, após a sua felicidade ter sido arrancada, assim, sem aviso. Como se sabe, pelo primeiro capítulo, ela regressa a casa dos pais, com os filhos. Porém, seria o seu caminho até lá que nos faria a nós, leitores, conhecer esta personagem, porque é nos momentos de adversidade que se revela o carácter das pessoas e as suas motivações.]
Por conhecer um pouco de Rosa Lobato de Faria, penso que este livro encerraria uma poderosa mensagem sobre a amizade de infância duradoura e a sua persistência perante as adversidades da vida, [que seria evidente quando as duas vidas se articulassem, novamente, com o regresso de ambas às origens].
Vento suão lembra a importância de mantermos junto a nós aqueles que amamos e que nos querem bem. E lembra também uma flor colhida antes do tempo. Uma bela escrita ainda em bruto, onde tanto ficou por dizer.
Classificação: 8/10 - Muito Bom
Confesso que a classificação que pensei antes de terminar a minha análise sobre o livro era inferior. Porém, este livro deu-me uma nova experiência. Terminar a história do livro foi um exercício maravilhoso que me relembrou as subtilezas da escrita de Rosa Lobato de Faria e o facto dos seus livros não primarem pela sua imprevisibilidade, mas sim pela sua habilidade de nos apresentar uma história mundana, real que nos faz sempre relembrar situações, pessoas ou ações que nos são familiares.
Felizmente, ainda tenho alguns livros dela para ler :)
Para aqueles que ainda não leram nada de Rosa Lobato de Faria, recomendaria antes outros livros da autora, para se ambientarem ao seu estilo.
Os que leram Vento Suão, qual é a vossa opinião sobre a continuação da história?
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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
El Tiempo entre Costuras (O Tempo entre Costuras), de María Dueñas
Um romance de ritmo imparável, costurado de encontros e desencontros, que nos transporta, em descrições fiéis, pelos cenários de uma Madrid pró-Alemanha, dos enclaves de Tânger e Tetuán e de uma Lisboa cosmopolita repleta de oportunistas e refugiados sem rumo.
A Minha Opinião: Quando me encontrava numa fnac madrilena, o único que procurava era um livro em Espanhol para oferecer à minha mãe que eu gostasse de ler quando ela o acabasse.
A escolha d' El Tiempo entre Costuras não poderia ter sido a mais certa. Apesar de estar um pouco receosa pelo marketing envolvido, após lê-lo concordo que o livro é sem dúvida é merecedor de tal destaque.
El Tiempo entre Costuras apresenta-nos uma história interessantíssima contada em 1ªpessoa por Sira Quiroga, uma jovem madrilena da primeira metade do século XX que desde cedo apresenta um talento para a costura e cuja vida é repleta de personagens autênticas, lugares tão próximos e ao mesmo tempo tão longínquos e experiências que nos agarram desde a primeira frase: "Una máquina de escribir reventó mi destino".
Muitas vezes faço a comparação da leitura de alguns livros com um rio e este é um excelente exemplo disso. Desde o início até ao final vamos embalados pela corrente, pelo que até nem precisamos de nos surpreender a cada minuto, pois os pormenores mais quotidianos do dia-a-dia da protagonista satisfazem-nos plenamente. É claro que uma escrita fluída ajuda, como é o caso da de María Dueñas, mas o enredo é também ele muitíssimo agradável de seguir. A dinâmica do livro é maravilhosa e as personagens simplesmente magníficas. É curioso como todas têm um papel tão importante e são uma presença tão sólida na vida de Sira e depois lentamente ou de repente o seu caminho separa-se do da protagonista para nunca ou mais tarde se reencontrarem. Tão parecido com o decorrer de uma vida, que é impossível não encontrar nestas personagens semelhanças a pessoas que conhecemos ou até connosco próprios.
Os acontecimentos que acompanhamos são igualmente fantásticos. Como referi, não são sempre algo absolutamente surpreendente - muitas coisas na vida não o são - mas as experiências de Sira são tão variadas e extremamente viciantes o que nos deixa ansiosamente à espera de pegar no livro de novo para ler só mais um bocadinho.
A nível de romance este livro já tem tanto. A nível de romance histórico ultrapassou qualquer expectativa que tinha. As descrições do protectorado espanhol são de puro deleite, a realidade de um Madrid destruído pela guerra parece demasiado real. À medida que avançamos na história seguimos Sira de Madrid a Tetuán a Tanger ou Lisboa e vê-la de forma tão vívida a percorrer as suas ruas faz-nos difícil não imaginar quase com exactidão aquele cenário.
Apesar de alguma parte da sua vida ser passada com a Guerra Civil Espanhola esta não é o ponto fulcral deste livro, no entanto são-nos dados a conhecer vários aspectos da guerra e principalmente dos anos seguintes ( a influência britânica por um lado e a germânica por outro) que eu desconhecia por completo.
Confesso, no entanto, que fiquei um pouco desiludida com o final. Para um grande livro queria um final que o correspondesse, mas não foi essa a sensação com que fiquei quando o acabei. Ainda assim, o final não retirou o prazer que tive ao ler este livro, ainda que um bolo delicioso mereceria no topo uma cereja um pouco maior.
A minha mãe e eu aconselhamos vivamente.
Classificação : 9/10 - Excelente
sábado, 11 de setembro de 2010
Sopro Do Mal, de Donato Carrisi
Sinopse: Seis braços enterrados. Seis crianças desaparecidas. Um serial killer brilhante e monstruoso, que instiga outros a matar por si.O criminologista Goran Gavila e a sua equipa de investigação são chamados a intervir, procurando descobrir um assassino que constantemente parece pô-los à prova.
Mila Vasquez, investigadora especializada em encontrar pessoas desaparecidas, entra em cena e junta-se à caça do homicida.
Mas cada passo que dá é, na verdade, controlado por uma mente genial e implacável. Tudo se passa como nun diabólico jogo da verdade, como se o Mal trouxesse consigo uma mensagem.
A minha opinião: Este é um fantástico livro, de Donato Carrisi.
Apesar de nuncar ter ouvido falar do autor e de o livro me ter sido oferecido no meu aniversário, logo não foi uma escolha minha, devo dizer que fiquei bastante impressionada! Na realidade, quando li a sinopse não estava nada à espera que este livro me interessasse, e não fiquei com grandes espectativas, no entanto, este revelou-se uma grandiosa surpresa! Que tremenda felicidade, saber que os novos autores são capazes de escreverem livros tão inteligentes quanto este!
Apesar de nuncar ter ouvido falar do autor e de o livro me ter sido oferecido no meu aniversário, logo não foi uma escolha minha, devo dizer que fiquei bastante impressionada! Na realidade, quando li a sinopse não estava nada à espera que este livro me interessasse, e não fiquei com grandes espectativas, no entanto, este revelou-se uma grandiosa surpresa! Que tremenda felicidade, saber que os novos autores são capazes de escreverem livros tão inteligentes quanto este!
A história passa-se à volta da personagem principal, a agente Mila Vasquez, que investiga o caso de seis raparigas raptadas, juntamente com novos colegas de equipa.
A equipa de investigação encontra seis braços enterrados, provas de crimes maquievélicos, cometidos por um serial killer, que mais tarde viriam a descobrir ser um homem com uma mente brilhante.
Durante toda a acção, o serial killer, a quem chamam de "Albert" em memória de um caso antigo, monta um perigoso jogo para a equipa de Gavila, da qual Mila agora faz parte. Todas as pistas são dadas aos investigadores porque o assassino assim o quer, mas nada é dado sem antes se serem revelados grandes segredos acerca de pessoas que passariam muito bem por inocentes. O objectivo do assassino é mostrar que não escolheu as meninas que matou, mas sim as famílias das crianças.
Pedófilos, assassinos, cumplices em crimes, parasitas*, padres, milionários, todos fazem parte deste mundo, e por vezes estão mesmo ao nosso lado. Será que conhecemos realmente bem o nosso vizinho da frente? E o padeiro? A mulher que vai sentada ao nosso lado no autocarro, será quem aparenta ser? É isto que o nosso autor nos quer transmitir: "Estamos ao lado de pessoas de quem pensamos saber tudo, mas de quem não sabemos nada..." - Goran Gavila
Segredos horriveis são revelados, e o jogo continua, todas as raparigas estao mortas, excepto a sexta.
Na ânsia de correr contra o tempo e salvar a sexta rapariga, Mila não se apercebe que está a ser enganada pelo colega em quem mais confia, e quando finalmente a realidade se dispõe diante dela, Mila nem quer acreditar, que, durante todo aquele tempo, todas as partilhas entre ela e Gavila foram uma completa farsa. E ali está! A resolução do crime, mesmo à frente dos seus olhos!
Na ânsia de correr contra o tempo e salvar a sexta rapariga, Mila não se apercebe que está a ser enganada pelo colega em quem mais confia, e quando finalmente a realidade se dispõe diante dela, Mila nem quer acreditar, que, durante todo aquele tempo, todas as partilhas entre ela e Gavila foram uma completa farsa. E ali está! A resolução do crime, mesmo à frente dos seus olhos!
Esta foi uma fantástica leitura, com um final nada esperado.
Os meus sinceros parabéns a Donato Carrisi pelo maravilhoso contributo para a cultura do Mundo!
*parasitas - aqueles que se apoderam da casa de outros, muitas vezes havendo sequestro da familia na própria casa.
Classificação: 9/10 - Excelente
PS: Um grandioso "Olá!" a todos os leitores! Que saudades, companheiros!
PS: Um grandioso "Olá!" a todos os leitores! Que saudades, companheiros!
domingo, 21 de junho de 2009
A Escrava de Córdova, de Alberto Santos
Sinopse:A Escrava de Córdova segue a vida de Ouroana, uma jovem cristã em demanda pela liberdade e pelo seu lugar especial no mundo. Uma história inolvidável de busca de felicidade que tem lugar nos séculos X-XI, numa época pouco tratada pela Historiografia oficial e mesmo pela ficção romanceada. Um pretexto para uma brilhante explicação sobre o caldo cultural e civilizacional celto-muçulmano dos actuais povos peninsulares e uma profunda explanação sobre as origens, fundamentos e consequências da conflituosidade étnico-religiosa que hoje, tal como no distante ano 1000, ainda grassa no mundo.A minha opinião: A Escrava de Córdova é um livro bem interessante. Para além de relatar uma época pouco retratada neste estilo literário, é também passada na nossa península, o que me permitiu completar algo do meu conhecimento.
A narrativa fala sobre uma princesa cristã, Ouroana, que é feita prisioneira por um grupo e que a vende como escrava em Córdova. É la que conhece o filho do casal, Abdus, pelo qual se apaixona. Através da vida de Ouroana e de todos aqueles com quem teve contacto, podemos ver o lado cristão e o lado árabe na mesma época, pelo tempo que ela passa nos dois locais. Gostei muito de notar as suas diferenças e como as três religiões co-habitavam. Envolvi-me completamente no contexto e foi cativante acompanhar a narrativa. Na minha opinião, os aspectos do quotidiano, em particular do árabe, foram bem descritos e eu, que pessoalmente não sou fã de descrições demasiado longas, gostei da escrita deste autor. Fico à espera do seu novo livro.
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