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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Vento Suão, de Rosa Lobato de Faria

Sinopse: Quando faleceu, a 2 de Fevereiro de 2010, Rosa Lobato de Faria deixou inacabado este Vento Suão. Pôs-se então a hipótese de pedir a um(a) autor(a) das suas relações que imaginasse um desenvolvimento para a história que a morte não deixara chegar ao fim e terminasse o livro inacabado. Depressa se concluiu, no entanto, que tal não era a melhor solução - primeiro, porque não se tinha a certeza de que a autora aprovasse essa inclusão de uma voz alheia no interior do seu próprio fluir narrativo; depois, porque, apesar de inacabado, o romance tinha o desenvolvimento suficiente para se deixar ler como um todo com sentido. Aqui fica, pois, este Vento Suão tal e qual como Rosa Lobato de Faria o deixou. E como derradeira homenagem a uma escritora cuja obra teve como eixos fundamentais " a força da vida, o conhecimento profundo da realidade e do meio em que se agitam os seus fantoches ficcionais, o domínio das minúcias, o fôlego narrativo, a irrupção imparável de um vento negro de violência que impões uma aura de tragédia intemporal ao que parece quase inócuo."

A minha opinião: Este livro cheira a despedida. 

Sabemos e sentimos desde o início que este é um livro inacabado, pelos traços estilísticos ainda em bruto, onde certamente haveria arestas por limar e pela história que nos deixa assim, subitamente, com tanto por contar.

O livro inicia-se com a reunião de Sofia e Luísa, duas amigas de infância do Alentejo, que acabaram por crescer separadas uma da outra, mas cujas memórias da infância partilhada não esqueciam. Os seus sonhos de criança tinham muito em comum, como é normal nas amigas de tenra idade, mas as suas vidas acabaram por tomar rumos diferentes. É curioso que, tal como n' Os Pássaros de Seda, as personagens são conhecidas, logo no primeiro capítulo, sem que saibamos "por que caminhos " chegaram ali.

Atenção : As secções [] são as minhas considerações sobre o rumo que a história poderia tomar, apenas com base no que li, podem conter revelações sobre o enredo.

As duas enfrentam problemas. Sofia, por rebeldia interior, aceita casar-se com um homem que mal conhece, tornando-se numa vítima doméstica que parece não querer libertar-se desse abuso. [A meu ver, esta personagem iria sofrer um grande desenvolvimento nas páginas que se seguiriam se o livro não acabasse, porque penso que a sua independência  e vontade de viver da juventude, sugadas pelo marido, ressurgiriam. O choque inicial e a culpa pela morte de Mateus seriam substituídos por um alívio interior e pela vontade de sair da casa que partilhara com ele. Sofia começaria de novo, na casa da avó, lembrando-se ainda carinhosamente dos criados que, tão fielmente, na vida anterior, a tinham acompanhado, mas com a vontade de viver renovada.]

Luísa, pelo seu lado, libertou-se de Zé, o homem que amava e que a traiu, apesar de toda a sua dedicação. Ao regressar ao Alentejo, esperam-na 10 anos de felicidade, ao lado de Duarte. [A meu ver, a história de Luísa seria mais desenvolvida se o livro tivesse terminado, sendo muito interessante perceber o que se seguiria na sua vida, após a sua  felicidade ter sido arrancada, assim, sem aviso. Como se sabe, pelo primeiro capítulo, ela regressa a casa dos pais, com os filhos. Porém, seria o seu caminho até lá que nos faria a nós, leitores, conhecer esta personagem, porque é nos momentos de adversidade que se revela o carácter das pessoas e as suas motivações.]

Por conhecer um pouco de Rosa Lobato de Faria, penso que este livro encerraria uma poderosa mensagem sobre a amizade de infância duradoura e a sua persistência perante as adversidades da vida, [que seria evidente quando as duas vidas se articulassem, novamente, com o regresso de ambas às origens].

Vento suão lembra a importância de mantermos junto a nós aqueles que amamos e que nos querem bem. E lembra também uma flor colhida antes do tempo. Uma bela escrita ainda em bruto, onde tanto ficou por dizer.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

Confesso que a classificação que pensei antes de terminar a minha análise sobre o livro era inferior. Porém, este livro deu-me uma nova experiência. Terminar a história do livro foi um exercício maravilhoso que me relembrou as subtilezas da escrita de Rosa Lobato de Faria e o facto dos seus livros não primarem pela sua imprevisibilidade, mas sim pela sua habilidade de nos apresentar uma história mundana, real que nos faz sempre relembrar situações, pessoas  ou ações que nos são familiares.

Felizmente, ainda tenho alguns livros dela para ler :)

Para aqueles que ainda não leram nada  de Rosa Lobato de Faria, recomendaria antes outros livros da autora, para se ambientarem ao seu estilo.

Os que leram Vento Suão, qual é a vossa opinião sobre a continuação da história?

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Os Pássaros de Seda, de Rosa Lobato de Faria

Sinopse: Graças à qualidade eterna do carácter de minha mãe e ao consequente travão que ela pôs à entrada do "progresso" naquela casa, a Pedra Moura guardou para sempre a sua transcendência de lugar mágico. O reino dos contos de fadas e dos autos de Natal, o mundo dos antigos aromas e sabores, o sítio da infância, o refúgio ideal para nascer e morrer.
Assim terminam as memórias de Mário, um dos protagonistas de Os Pássaros de Seda, um livro soobre a condição humana, que opões os valores perenes da infância, do maravilhoso e do amor à precariedade das paixões e dos transes da fortuna.
Um magnífico romance que, depois de O Pranto de Lúcifer, confirma a sua autora como uma presença incontornável no panorama da nova ficção portuguesa.

A minha opinião: Belíssimo. Este pequeno livro de 200 páginas encerra em si uma história mundana, de um amor silenciosamente incorrespondido. Algo cliché, é certo, mas em Rosa Lobato de Faria o que nos toca não é um enredo com grande mistérios e acontecimentos imprevisíveis. O que nos toca, sim, é a beleza da escrita, os pormenores e os detalhes que transformam, aos ouvidos, a prosa em poesia.

Os Pássaros de Seda  são, praticamente, as memórias de Mário, filho de uma criada, que vive com ela, o tio-avô - Zebra - e Diamantina, que foi adoptada pela mãe e o tio. Companheiros inseparáveis enquanto crianças, Mário cedo evoluiu para um amor sincero por Diamantina, a qual não via em Mário senão um irmão. A vida de ambos segue rumos muito diferentes, mas sendo Diamantina a protagonista da vida de Mário é, também, ela a protagonista deste livro.

Os Pássaros de Seda apresenta-nos, assim, uma história que nos dá asas para reflectir sobre as relações humanas, os erros do passado, o apreço que damos, mas principalmente, o que não damos ao que nos rodeia, e o facto das nossas memórias serem feitas de pequenos momentos, mas esses momentos fazerem toda a diferença. No fundo, Os Pássaros de Seda fala-nos da vida.

E essa reflexão deve-se às personagens que nos lembram os nossos próprios amigos, namorados, irmãos, pais, avós, desde os contos do tio Zebra que, metaforicamente, descrevem tantos momentos e erros nas vidas de Diamantina e Mário, aos pensamentos das personagens, quer principais quer secundárias, que nos ferem o coração de tão dolorosamente verdadeiras e aplicáveis à nossa vida.

Ao acabar de lê-lo, a única palavra que tenho em mente é bravo. O final dói pela morte de Mário, uma personagem cuja intervenção quase parece um detalhe na história, mas que nos proporcionou um livro belíssimo que nos envolve subtilmente mas de maneira incontornável.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O Prenúncio das Águas,de Rosa Lobato de Faria

Sinopse:Tendo como pano de fundo uma aldeia condenada a ficar submersa pelas águas de uma barragem,cinco narradores falam de si,completando, à medida que o fazem,uma história a que só o leitor terá direito.

A minha opinião: Rosa Lobato de Faria tornou-se uma das minhas escritoras preferidas e, provavelmente, deve ser a que mais me impressiona pela sua prosa. Tem um je ne sais quoi de poético, uma forma melodiosa de construir as frases e encaixar versos e frases conhecidas de uma forma subtil. É essa prosa que consegue, como poucos escritores o logram, embrenhar intensamente o leitor numa história mundana e simples. Sim,é essa simplicidade de que traz ao livro algo de encantador.
Deter-me-ei agora de falar na sua belíssima escrita, pois a história também tem muito para dizer. Em O Prenúncio das Águas, o leitor é enviado para o Rio do Anjo, uma aldeia alentejana, recheada de lendas e habitantes típicos de uma aldeia portuguesa, que devido a uma barragem, será submersa pelas águas do rio. Os dias finais desta aldeia são nos relatados, na 1º pessoa, por 5 habitantes : um rapaz de nome Pedro, Ivo,um homem de 60 anos, Filomena, uma filha de emigrantes em França que retorna à sua terra de origem, Ausenda,uma das irmãs Matias Branco e Sebastiana, a habitante mais idosa da aldeia, considerada uma bruxa pelas crianças. É através da visão de cada uma delas que vemos perspectivas completamente diferentes sobre o triste, mas inevitável fim da aldeia. É curioso como Rosa Lobato de Faria consegue, graças ao seu talento, escrever como se fosse 5 pessoas ao mesmo tempo. O capítulo de cada personagem começa e o leitor sabe instantaneamente que personagem é, apenas porque a sua voz característica é logo ouvida.
Apesar de haver uma certa previsibilidade no caminho de cada personagem e no fim da história, não há um único momento em que não haja a esperança de um novo rumo das coisas, em que não vibremos e nos revoltemos com as personagens. Como disse, a história trata de um tema muito mundano, real, mas talvez seja essa a característica que lhe confere algo tão especial. Rosa Lobato de Faria é uma escritora que recomendo. Ler os seus livros é puro deleite.
Classificação: 9/10 - Excelente

segunda-feira, 11 de abril de 2011

A Alma Trocada, de Rosa Lobato de Faria

Sinopse: É um lugar comum dizer-se que determinada orientação sexual não é uma escolha, porque, se fosse, ninguém escolheria o caminho mais difícil. Foi esse caminho mais difícil que Teófilo teve de percorrer, desde a incompatibilidade com os pais, aos desencontros dentro de si próprio, chegando mesmo a acreditar que alguém lhe tinha trocado a alma...

A Minha Opinião: Após ter lido A Trança de Inês, um livro da autora que simplesmente adorei, tinha expectativas elevadas em relação a este, não porque a temática me chamasse particularmente a atenção, mas porque já tinha saudades da belíssima expressão escrita de Rosa Lobato de Faria.


Pela segunda vez, apaixonei-me pela prosa da autora. Alguma parte da acção do livro passa-se no Alentejo e devo dizer que a descrição daquele local era maravilhosa, tão credível e tão real, tão chamativa. E a forma como o livro está escrito faz simplesmente com que o leitor se escape da sua mente e entre dentro da cabeça da personagem principal, Téo, sem quase se aperceber.

No entanto, (talvez um pouco pelas expectativas que tinha) o próprio enredo não me chamou tanto a atenção. Houve, certamente, momentos interessantes e personagens com as quais simpatizei, como a avó Jacinta, mas nada de muito memorável se o comparar com A Trança de Inês.

Não deixa de ser um bom livro. Apesar de ter sido em algumas partes demasiado mundano, devido a certos acontecimentos que, a meu ver, não trouxeram nada de novo ao livro, a mensagem durante o mesmo era belíssima: "a alma é indivisível e una, a alma é tua, Teófilo. Tens que aprender a viver com ela".

A Alma Trocada não me causou a mesma impressão que A Trança de Inês, mas continua a ser um livro que prima pela expressão escrita e o problema com que lida (que não me parece ser exclusivamente a homossexualidade, mas sim o sentirmo-nos bem com o que somos e aceitarmo-nos).

Gostei. Rosa Lobato de Faria é uma autora que vou ler brevemente e que aconselho vivamente.

Classificação: 8/10 (Muito Bom)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A Trança de Inês, de Rosa Lobato de Faria

Sinopse: "Assim as mulheres passam umas às outras a sua teia ancestral de seduções, subentendidos, receitas que hão-de prender os homens pela gula, a luxúria, a preguiça e todos os pecados capitais, é por isso que elas nunca querem os santos, os que não se deixam tentar, os que resistem à mesa, à indolência, à cama, à feitiçaria dos temperos, ao sortilégio das carícias, à bruxaria das intrigas." Baseado no mito de Pedro e Inês (mais na lenda do que na História), um romance sobre a intemporalidade da paixão, onde se abordam também alguns mistérios da existência. Um romance que, se não dá nenhuma resposta, coloca ao leitor algumas inquietantes questões. Rosa Lobato de Faria, "Prémio Máxima de Literatura" com o seu romance anterior, O Prenúncio das Águas, confirma aqui, uma vez mais, o seu notável talento de escritora.

A Minha Opinião: Ao contrário da maioria dos livros que leio, este não era um livro que quisesse ler há muito tempo. O interesse surgiu numa conversa com a minha professora de português sobre a importância da expressão escrita face ao desenrolar da acção/ história. Acabou por aconselhar-me Rosa Lobato de Faria, não só pela sua belíssima prosa poética, mas também porque eu devia ler mais autores lusófonos, o que, como já devem ter reparado, é bem verdade.


Foi-me bastante difícil escolher o livro da autora pelo qual começar. Os títulos apelavam-me todos, mas acabei por escolher A Trança de Inês, um pouco pela minha curiosidade em saber como abordaria Rosa Lobato de Faria esta célebre história de amor.


Ainda que pequeno, o livro é maravilhoso. A sensação com que ficamos ao acabar de lê-lo é de puro fascínio pela qualidade da escrita do que acabamos de ler, pela beleza da história, pela forma como somos imersos nos pensamentos e no universo do protagonista, Pedro.
Quaisquer preconceitos ou receios que tivéssemos à partida, desvanecem-se. A história lê-se muito bem, pois a abordagem feita pela autora ao romance de Pedro e Inês é magnífica. O livro absorve-nos desde o início até ao final e mesmo assim, a minha vontade ao acabar de lê-lo era recomeçar. Somos simplesmente presos por este romance que rompe a ténue linha que separa passado, presente e futuro.

Este é um dos poucos livros em que se pode abrir uma página ao acaso e ler algo esplêndido.
Quando o acabei, percebi que me tinha preenchido por completo. Eu poder-vos-ia falar sobre este livro durante horas, mas descubram por vocês próprios. Surpreendam-se. Eu, sem dúvida, surpreendi-me.

Classificação: 10/10 - Magnifique