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sábado, 19 de julho de 2014

A rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/a-rapariga-que-inventou-um-sonho/9789724617909/
Sinopse: Em A Rapariga que Inventou Um Sonho, o autor do best-seller Kafka à Beira-Mar envolve a fantasia com a mais natural das realidades. Do surreal ao mundano, estas histórias exibem a sua habilidade de transformar o curso da experiência humana na mais pura e surpreendente arte literária.
Há corvos animados, macacos criminosos, um homem de gelo… Há sonhos que nos moldam e coisas que sempre sonhámos ter… Há reuniões em Itália, um exílio romântico na Grécia, umas férias no Havai… Há personagens que se confrontam com perdas dolorosas, outras que se deparam com distâncias inultrapassáveis entre os que querem estar o mais próximo possível.
Quase todas as histórias são melancólicas, com personagens submersas pela solidão. Murakami junta os seus temas favoritos: os acontecimentos inexplicáveis (o tal toque de fantástico que provoca por vezes a sua inclusão na corrente do realismo fantástico), as coincidências, o jazz, os pássaros e os gatos. Tal como foi escrito no Los Angeles Times Book Reviey, "Murakami abraça o fantástico e o real, cada um com a mesma envolvência de intensidade e luminosidade."

A minha opinião:  Não me considava uma fã de contos. Sempre preferi romances que, por serem mais longos, eram, a meu ver, mais ricos no que dizia respeito ao estabelecimento duma ligação com as personagens/história. Foi por isso que, quando peguei neste livro há uns meses atrás, li apenas o primeiro conto e deixei-o de lado.

Por alguma razão decidi retomá-lo e, desta vez, não consegui parar. Corrijo, a leitura em si não foi rápida, afinal de contas, trata-se de Murakami e os contos que mais me chamaram a atenção exigiram uns momentos de reflexão pós-leitura. Acontece, porém, que houve uma interseção entre o meu estado de espírito e a atmosfera surreal murakamiana de tal modo que o primeiro conto acabou por ser um dos meus preferidos.


Quem conhece Murakami reconhecerá muitos elementos dos seus romances nesta coletânea de contos. No entanto, por serem mais curtos, têm, a meu ver, um maior poder de desconcertar o leitor. As palavras e os sentimentos adquirem um maior significado, os acontecimentos menor importância. Cada conto apresenta em poucas páginas uma história de 2 ou 3 personagens, onde são na verdade a solidão, o medo, o arrependimento ou a melancolia dessas mesmas personagens os verdadeiros protagonistas. E só assim é que, imediatamente, há contos que nos dizem tanto, apesar de nada do que está relatado ser semelhante ao que vivemos.

Destaco os contos "A rapariga que inventou um sonho", A Menina dos Anos","A História de uma tia pobre", "O Sétimo Homem", "Tony Takitani". Todos eles encerram poderosas mensagens sobre a nossa visão do mundo, os desejos, a crueldade do esquecimento, o perigo de não enfrentarmos os nossos medos ou a solidão profunda. 
Não diria que os outros contos não devam ser referidos, mas numa coletânea de 24 contos, há claramente contos que nos apelam mais que outros.

Murakami é um autor que recomendo, ainda que, para primeiro contacto, Sputnik, Meu Amor ou A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol me pareçam mais adequados.

Classificação: 8/10 - Muito Bom

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Crónica do Pássaro de Corda, de Haruki Murakami

Sinopse: Toru Okada, um jovem japonês que vive na mais completa normalidade, vê a sua vida transformada após o telefonema anónimo de uma mulher. Começam a aparecer personagens cada vez mais estranhas em seu redor e o real vai degradando-se até se transformar em algo fantasmagórico. A percepção do mundo torna-se mágica, os sonhos invadem a realidade e, pouco a pouco, Toru sente-se impelido a resolver os conflitos que carregou durante toda a sua vida.
Este livro conta com uma galeria de personagens tão surpreendentes como profundamente autênticas e, quase por magia, o mundo quotidiano do Japão moderno aparece-nos como algo estranhamente familiar.
Crónica do Pássaro de Corda, ao qual foi atribuído o Prémio Yomiuri, é considerado, por muitos, a obra-prima de Murakami. 

A minha opinião: Murakami é um escritor único, cujas obras primam pela atmosfera surreal em que o leitor é envolvido. Apesar da peculiaridade das personagens e acontecimentos narrados, que chegam a ser muito bizarros, o facto é que as histórias costumam ser sempre cativantes.

Na Crónica do Pássaro de Corda, Murakami apresenta-nos Toru Okada, um homem que aparenta levar uma vida banal até que recebe uma chamada anónima de uma mulher, sendo que, a partir daí, a sua vida vai estar repleta de acontecimentos que parecem ilógicos, mas que, na realidade não são tão obscuros ou deslocados da realidade. 

Confesso que, no início, me foi difícil gostar do livro. Isto, porque se revelava já uma tendência para muitas pontas soltas e histórias paralelas ao longo da leitura que, ainda que se tenham mantido ao longo desta e até tenha gostado, foram difíceis de me habituar inicialmente.

Mas, se primeiro se estranha, depois entranha-se e o facto é que a leitura foi ganhando ritmo. Este livro foi, dos que li de Murakami, aquele com que deparei com personagens mais inusuais, que por se distanciarem das opções de vida habituais, revelam uma sabedoria e liberdade fascinantes. Dentro das pessoas com que Toru contacta, conhecemos espírito livres e jovens, personagens que abraçam o sobrenatural, mas também seres sem escrúpulos e manipuladores, que reconhecem os mais vulneráveis e deles se aproveitam. Com eles reflectimos sobre o destino, a dualidade do ser humano, o conhecimento que temos sobre as pessoas e os impulsos, a fronteira ténue entre consciente e inconsciente, sendo várias as passagens convidativas a estas reflexões pessoais, que me fizeram parar a leitura, diversas vezes, para absorver o que estava a ler.  Aliás, a diferença tão subtil entre sono e vigília afectaram, inclusivamente, uma noite que seria, para mim, calma e tranquila, mas que Murakami não deixou sossegada.

Confesso que gostaria de ter gostado tanto deste livro como dos outros que li dele, mas o facto é que me deixou um vazio no final. Talvez por ter sentido pouco interesse em algumas partes da leitura ou por Murakami ter levado mais ao extremo as pontas soltas em alguns momentos do livro, não desfrutei tanto da história da Crónica do Pássaro de Corda. Porém, a leitura de excertos onde há um apelo magnífico  às sensações, que me levam a descobrir obras de música clássica maravilhosas e as reflexões que o livro incitou valeram bem a pena.


Classificação: 7/10 - Bom  

PS - Para os leitores que gostariam de começar a ler Murakami, Sputnik, Meu Amor ou A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol seriam melhores escolhas, a meu ver, para se ambientarem ao estilo de Murakami. 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sputnik, Meu Amor, de Haruki Murakami

Sinopse: O gelo é frio e as rosas são vermelhas. Estou apaixonada. E este amor vai decerto arrastar-me para longe. A corrente é demasiado forte, não tenho escolha possível. Mas já não posso voltar atrás. Só posso deixar-me ir com a maré. Mesmo que comece a arder, mesmo que desapareça para sempre.

A Minha Opinião : Parti com enormes expectativas para este romance. A capa, o autor, o próprio título, tudo me fazia crer que estava perante um livro que iria adorar. Porém, na primeira página, Murakami deitou por terra tudo aquilo que eu pensava que Sputnik, Meu amor iria ser e ainda assim, não descansei até acabá-lo.

Nunca imaginaria que numa altura tão aterefada um livro pudesse envolver-me da maneira que este o fez. Nunca pensaria que, durante uma semana, um livro pudesse teimar tanto em abandonar a minha cabeça. A verdade é que foi exactamente o que aconteceu.

A história vai se tornando cada vez mais intrigante à medida que prosseguimos a leitura. No início, somos apresentados a uma personagem muito peculiar e lunática com a qual simpatizei desde a primeira página, Sumire. Apesar da história girar à sua volta, o livro é narrado na primeira pessoa por um professor de primária, grande amigo desta, que se encontra apaixonado por ela. Seria de esperar que Sumire também estivesse apaixonada por ele, mas não. Com 22 anos, Sumire apaixona-se pela primeira vez na vida por uma mulher casada, Miu.

À primeira vista, o enredo pode parecer banal. No entanto, garanto-vos que não o é. Murakami pegou no conceito de um triângulo amoroso e levou-o para um nível completamente superior, pois com uns toques surreais, transformou uma simples história aparentemente real numa história fascinante, que corta a respiração aos leitores pelas maravilhosas passagens que têm o privilégio de ler.

Digo isto, porque, de facto, o toque surreal de Murakami ajuda para se gostar do livro, mas é preciso uma escrita maravilhosa que faça justiça a um bom enredo. À semelhança do que constatei em A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, a escrita é muito fluida e rica, pois muitas passagens têm metáforas belíssimas e as frases soam simplemente melodiosas. Inúmeras páginas do meu livro têm os seus cantos dobrados por ter encontrado parágrafos profundos que me fizeram parar antes de continuar a ler.

O único ponto negativo que posso apontar é o facto de que, ao contrário do outro romance, a história não tem tanto o carácter oriental de que estava à espera, pois uma parte da acção passa-se na Grécia. Talvez por isso tenha sentido que estava um pouco abaixo do outro romance.

Fora isto, adorei o livro. A história é belíssima e cativante. O facto de ter um toque que passa as barreiras do mundo real foi algo único que me fez escapar deste mundo por instantes.


Classificação : 9/10

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, de Haruki Murakami

Sinopse: Na primeira semana do primeiro mês do primeiro ano da segunda metade do século XX, ao protagonista, que também faz as vezes de narrador, é dado o nome de Hajime, que significa «início». Filho único de uma normal família japonesa, Hajime vive numa província um pouco sonolenta, como normalmente todas as províncias o são. Nos seus tempos de rapazinho faz amizade com Shimamoto, também ela filha única e rapariga brilhante na escola, com quem reparte interesses pela leitura e pela música. Juntos, têm por hábito escutar a colecção de discos do pai dela, sobretudo «South of the Border, West of the Sun», tema de Nat King Cole que dá título ao romance. Mas o destino faz com que os dois companheiros de escola sejam obrigados a separar-se. Os anos passam, Hajime segue a sua vida. A lembrança de Shimamoto, porém, permanece viva, tanto como aquilo que poderia ter sido como aquilo que não foi. De um dia para o outro, vinte anos mais tarde, Shimamoto reaparece certa noite na vida de Hajime. Para além de ser uma mulher de grande beleza e rara intensidade, a sua simples presença encontra-se envolta em mistério. Da noite para o dia, Hajime vê-se catapultado para o passado, colocando tudo o que tem, todo o seu presente em risco.

A minha opinião: Que livro! Já queria há algum tempo ler um livro de Murakami. Depois de ver tantas opiniões tão boas, já esperava surpreender-me, contudo, acho que não estava à espera de que fosse assim tão bom.

Antes de mais, o título:
A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol. É tão bonito, não é? Uma pequena frase, que além de chamar a atenção, soa como uma pequena melodia para ouvir ao final do dia. Lindíssimo. Neste caso, pode-se julgar a escrita pelo título. Murakami escreve de uma forma magnífica. É difícil exemplificar o quão maravilhoso é ler uma pequena parte do livro, até porque a minha vontade quando o acabei, foi lê-lo de novo. Isto porque a escrita de Murakami é para mim, como uma paisagem. É tão natural, tão bela, que inebria todos os sentidos. Tem descrições tão maravilhosas, que nós podemos ver as coisas com pormenor e ainda assim dar o nosso toque pessoal ao que imaginamos. Eu até vos mostro só uma frase:

"Um sorriso que parecia uma leve brisa soprando de algum lugar distante."

Eu adorei todas as comparações que ele fazia à natureza. É realmente um prazer ler Murakami. E este foi o primeiro livro, mal posso esperar por ler outro!

Quanto à história, é simples, mas ao mesmo tempo, profunda e consegue cativar o leitor. Houve inúmeras alturas em que eu me sentia de tal forma envolvida na história que o meu estado de espírito coincidia com o da personagem principal. É inacreditável, como me envolveu assim. Penso que se não fosse a escrita, não me sentiria tão agarrada ao que estava a acontecer.

Enfim, só posso acabar dizendo que estou ainda fascinada pelo que li e que para primeiro livro de 2010, penso que comecei de uma forma excelente!

Classificação : 9/10 - Excelente