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segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Perfume, de Patrick Süskind

Sinopse: Esta estranha história passa-se no século XVIII e é fruto de um extraordinário trabalho de reconstituição histórica que consegue captar plenamente os ambientes da época tal como as mentalidades. O protagonista é um artesão especializado no ofício de perfumista, e essa arte constitui para ele – nascido no meio dos nauseabundos odores de um mercado de rua – uma alquímica busca do Absoluto. O perfume supremo será para ele uma forma de alcançar o Belo e, nessa demanda nada o detém, nem mesmo os crimes mais hediondos, que fazem dele um ser monstruoso aos nossos olhos. Jean-Baptiste Grenouille possui no entanto uma incorrupta pureza que exerce um forte fascínio sobre o leitor. O Perfume, publicado em 1985, de um autor então quase desconhecido, foi considerado um dos mais importantes romances da década e nunca mais deixou de ser reeditado desde então, totalizando os 4 milhões de exemplares vendidos, só na Alemanha, e 15 milhões em países estrangeiros. Foi traduzido em 42 línguas. Este fenómeno transformou-o num dos mais importantes livros de culto de sempre. Em 2006, O Perfume passa a ser uma longa-metragem inspirada no romance de Patrick Süskind.

A minha opinião: Sublime. O Perfume é um livro fascinante e aterrador, com o poder de atrair ao mesmo tempo que repela. Esta capacidade é conseguida por inúmeros aspectos que fazem com que este livro sobressaia imediatamente. Apesar de ter lido outro livro do autor -O Contrabaixo- e ter gostado, este tem algo muito especial, pelo que não é por acaso que é considerado a obra-prima de Patrick Süskind.

Algo que logo se destacou foi a personagem central deste livro. Grenouille não pode ser considerado um ser humano. É o mal personficado num ser abominável, com uma inexplicável sensibilidade olfativa, mas que não possui odor próprio. Esta falta de odor é como se fosse uma falta de identidade. Grenouille não sente, como os seres humanos, uma necessidade de sociabilizar e é capaz de persistir em situações que seres humanos normais não sobreviveriam. Aos seus olhos, é como se fosse um deus, no entanto, é visto como um ser inofensivo e até desprezível pelo resto das pessoas. Por algumas destas características e por outras, é frequentemente comparado com uma carraça. Não posso dizer que me identifiquei com a personagem como é costume, mas ela manteve-me intrigada e, misteriosamente, houve alturas em que não o conseguia ver como um assassino.

Esta estranha personagem, usando o seu dom olfativo que o permite reconhcer os objectos pelo odor vai interioizando as técnicas do fabrico de perfumes e da extracção de essências de flores. A aprendizagem destas técnicas tem como objectivo final o fabrico dum perfume que contivesse uma essência única, a essência de belas jovens virgens, como que o auge da beleza olfativa. É na procura desta última essência que Grenouille assassina várias jovens, retendo no entanto, o que para ele era significativo - o seu odor.

Esta obcessão ao longo do livro gerada em torno dos odores é algo único. Atrevo-me a dizer que a minha percepção olfativa parece já não ser a mesma, principalmente depois deste parágrafo:

"De facto, os homens podiam fechar os olhos ante a grandiosidade, ante o louvor, ante a beleza e fechar os ouvidos a melodias ou palavras lisonjeiras. Não podiam, no entanto, furtar-se ao odor, dado que o odor era irmão da respiração. Penetrava nos homens em simultâneo com ela; não podiam erguer-lhe obstáculos, caso lhes interessasse viver. E o odor penetrava directamente neles até ao coração e ali tomava decisões sobre a simpatia e o desprezo, a repugnância e o desejo, o amor e o ódio. Quem controlava os odores, controlava o coração dos homens."

Esta visão é perturbadora. Ao longo do livro, apercebemos nos em várias situações da importância de um sentido subestimado - o olfacto. É precisamente a ausência de odor que faz com que os seres humanos não se apercebam do perigo que é Grenouille ou que o amem quando ele está "disfarçado" com um perfume. Estas mudanças de comportamento em relação a Grenouille são originadas pelo odor, mas os seres humanos nunca detectaram razão das mesmas, porque respirar é algo inato.

O final do livro foi para mim tão imprevisível que tive de parar uns momentos para absorver o que tinha acabado acontecer. Numa palavra, genial. (spoiler a seguir, passar o cursor) O leitor não fica com a sensação de que houve um prevalecimento do bem porque já não resta nada de Grenouille na Terra. Para mim, ele conseguiu o que queria, foi absorvido pelos seres humanos que o comeram e incorporado por estes, possuindo, finalmente um odor.

Compreendo agora a razão do seu sucesso. O Perfume é um livro único, difícil de pousar e com uma história dificil de esquecer. Ao acabá-lo, percebo que a sua verdadeira riqueza está nas entrelinhas, ainda que eu, muito provavelmente, não a tenha captado totalmente. Por isso mesmo sei que o irei reler dentro de cinco, seis ou sete anos. Captar a verdadeira essência deste livro poderá ser difícil, mas será certamente recompensador. Recomendo.

Classificação : 10/10

Nota: Após escrever esta opinião, aventurei-me pela internet e descobri pontos de vista muito interessantes sobre a história relatada que vos aconselho a ler:
- Opinião no blog nlivros
- Opinião no blog Há sempre um livro à nossa espera
- O ensaio de Sun-chieg Liang sobre a natureza de Grenouille e a ideia de Eu cheiro, logo existo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O contrabaixo, de Patrick Süskind

Sinopse: Imagine que se encontra numa sala à prova de som, o seu quarto por exemplo. E aí, rodeado de tudo o que lhe pertence, objectos com os quais se habituou a conviver e que ajudam a delimitar o campo da sua individualidade se lembra de um dia contar aos outros como é vivida a sua solidão… É mais ou menos num cenário como este que um contrabaixista de uma orquestra nacional alemã, tendo como interlocutor o público teatral, confidencia em livre associação de ideias, sarcástico e pleno de uma ironia amargurada, o seu amor não revelado por Sara, uma cantora de ópera. Só que esta relação platónica dificilmente se poderá tornar realidade. E isto por causa do contrabaixo, o instrumento musical que uma orquestra que se preze não pode dispensar. Além disso, o instrumento mais arcaico ainda existente, aquele que melhor se ouve quanto mais afastados estivermos dele e quanto ao aspecto externo, um instrumento de natureza hermafrodita. Parecendo-se com uma gigantesca rabeca na parte inferior, enquanto na parte superior se aproxima de uma não menor viola de gamba. Desajeitado e incómodo o instrumento é para este contrabaixista o maior empecilho a um grande e profundo amor. Exemplificado assim o isolamento em que vive esta personagem curiosa, é pela sua boca ainda que penetramos na história da música e dos músicos, para nos confrontarmos com uma brilhante crítica à sociedade contemporânea.

A Minha opinião: [Antes de se questionarem, não, não li O Perfume, pelo que não poderei de todo comparar este pequeno livro com a obra mais conhecida do escritor.]

O Contrabaixo foi um daqueles livros de que nunca teria tomado conhecimento se não fossem os blogs de leitura que habitualmente visito. Após duas críticas que me deixaram bastante curiosa, decidi lê-lo ainda antes d' O Perfume. O resultado: muito positivo.

Dada a extensão do livro não esperava uma grande obra-prima, no entanto, fiquei muito surpreendida. Os ingredientes do livro eram perfeitos para uma apaixonada pela música (e sua história) que por acaso até tocou violoncelo. De certa forma, já estava à espera de gostar, de uma maneira ou outra teria de identificar o contrabaixista com algumas almas de músicos que tenho encontrado pelo caminho. No entanto, isso não foi o único de que gostei. A escrita era muito boa e apesar da personagem ir deambulando por vários temas, tudo parecia natural, real. Além disso, todo o cenário estava muito interessante. O monólogo do contrabaixista e os seus devaneios juntamente com os trechos musicais que ele e eu iamos ouvindo resultaram num cenário muito realista, em que o leitor como que está ali a ouvir os seus pensamentos, identificando-se com alguns, querendo refutar outros, mas sem poder fazer nada a não ser ouvir o pobre homem.

Apesar de ter lido o livro de uma perspectiva um pouco musical, uma pessoa menos ligada à música poderá disfrutar deste livro, a julgar pelas opiniões que li (esta e esta) e também porque não é necessário ter conhecimento musical para perceber as metáforas que vão aparecendo ao longo do monólogo do contrabaixista. Afinal de contas, como ele próprio diz, a orquestra nada mais é do que uma imagem da sociedade humana.

Uma pequena leitura que se lê de um fôlego, mas não por isso menos interessante.

Classificação: 7/10 - Bom